GESTÃO DE SUBSTÂNCIAS RESTRITAS: normas globais desafiam indústria e exigem adaptação contínua
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O controle mundial sobre comercialização e uso das substâncias restritas é um processo desafiador, que exige constantes readaptações para as empresas e a sociedade. Visando a proteger a saúde humana e preservar o meio ambiente, nos últimos 20 anos, foram criadas diferentes regulamentações técnicas que geraram impactos consideráveis para toda a cadeia de fornecimento, os fabricantes e os canais de distribuição. Ao longo das duas décadas, essas normativas vêm sendo atualizadas e com isso novas substâncias passaram a ser listadas em diferentes programas de controle, imputando às indústrias uma constante busca por alternativas para o desenvolvimento de seus materiais em conformidade com essas determinações. Tudo isso sem correr o risco de os produtos perderem as propriedades funcionais e demais características exigidas pelo mercado consumidor.
Criadas pelos países e também por grandes marcas, essas normatizações se tornaram barreiras técnicas para a entrada dos produtos, materiais e substâncias nos mercados e, mais do que ferramentas de diferenciação, se configuram como uma necessidade para a sobrevivência das organizações, especialmente daquelas que atuam no segmento de exportação.
Um dos grandes desafios para os fabricantes está no acesso a informações atualizadas, pois, além de essas regulamentações serem constantemente modificadas - tanto com a introdução de novas substâncias quanto na revisão das quantidades toleradas -, os programas orientativos não coincidem em tudo, quando comparamos uns com os outros. Ou seja, enquanto em um programa uma determinada substância aparece entre as prioridades em outro ela pode nem estar incluída. E existem também casos em que uma mesma substância aparece em diferentes listagens, mas as exigências quanto aos limites permitidos são diferentes.
O que o calçado tem a ver com isso?
A lista de substâncias controladas é bem grande. No caso dos calçados, as mais comuns são:
- Cromo VI: frequentemente encontrado no couro, resultante do processo de curtimento;
- Ftalatos: usados como plastificantes para tornar materiais sintéticos mais flexíveis;
- Dimetilfumarato: biocida utilizado para evitar mofo;
- Corantes Azo: utilizados para tingir têxteis e couro;
- Parafinas cloradas de cadeia curta: utilizadas como amaciantes ou retardantes de chama, principalmente em plásticos, borracha e sintéticos;
- Fenóis clorados: usados como conservantes e fungicidas em couro e têxteis;
- Formaldeído: utilizado no acabamento de couros e tecidos para aumentar a durabilidade e resistência a rugas.

O monitoramento dessas substâncias busca oferecer mais segurança para a população, evitando alergias, toxicidade, riscos de câncer, além de outros males, como infertilidade e malformação de fetos, e também para prevenir a ocorrência de danos ambientais decorrentes ao longo das etapas de produção, uso e descarte final dos produtos. Esses elementos podem estar presentes em qualquer parte de um calçado, como por exemplo no tecido do forro, em um adereço, na tinta, no adesivo, em uma linha, no material do cabedal, na palmilha ou no solado. “Um grande problema associado a essas substâncias é que muitas delas são bioacumulativas, e essa acumulação no organismo nem é percebida pelas pessoas”, alerta o presidente executivo do Instituto Brasileiro de Tecnologia do Couro, Calçado e Artefatos (IBTeC), professor doutor Valdir Soldi, que abordou o tema no Happy Hour com Tecnologia, evento realizado na sede do instituto, no último mês de março.
Algumas das principais regulamentações
A preocupação com a gestão das substâncias restritas teve como ponto de partida a necessidade de a indústria readequar os seus produtos e materiais para atender a essas
exigências dos mercados e das marcas globais. Hoje, existem várias normas e leis que regulamentam a produção e distribuição desde insumos, materiais e artigos que abastecem toda a cadeia de produção e consumo.
Para poderem distribuir os seus desenvolvimentos, as empresas precisam comprovar que as substâncias que representam riscos não estão presentes nos materiais e insumos utilizados ou, se constarem, que eles estão dentro dos limites máximos permitidos.
REACH - Um desses regulamentos, por exemplo, é o Reach. Criado pela União Europeia, entrou em vigor em 2007, tratando sobre registro, avaliação, autorização e restrição de substâncias químicas. O programa funciona como uma grande base de dados sobre uma ampla gama de produtos químicos (em torno de 27 mil substâncias registradas) e o fabricante precisa informar sobre o que produz, recebe, exporta ou importa. A Agência Europeia de Produtos Químicos, conhecida pela sigla Echa é a responsável por gerir os aspectos técnicos, científicos e administrativos da legislação europeia sobre produtos químicos. Para isso, centenas de especialistas na área química consultados definem se uma substância precisa ser controlada ou não. A Echa também administra as informações sobre a produção e a importação de químicos na União Europeia. Hoje, dentro desse universo de 27 mil substâncias, em torno de 250 são consideradas de elevada preocupação.
PROP 65 - Já a Proposition 65 é uma lei ainda mais antiga, criada em 1986 no estado da Califórnia/EUA. A exigência é que as empresas orientem os consumidores sobre os riscos de exposição a substâncias químicas a que possam estar expostos ao usarem um produto. Durante muitos anos essa lei foi específica do estado da Califórnia. Hoje, porém, é um programa complexo, com mais de 1.000 substâncias químicas envolvidas.
AFIRM - Outro programa orientativo é o Afirm Group, uma iniciativa protagonizada pelas maiores marcas mundiais que, a partir de 2004, passaram a listar substâncias com uso restrito para roupas e calçados, num esforço para harmonizar os padrões químicos, garantindo segurança no uso desses produtos. Hoje, cerca de 50 marcas líderes fazem parte desse grupo. Em 2025, por exemplo, o Afirm diminuiu os limites para a presença de bisfenóis em vestuário e calçado. Até então não se tinha uma preocupação muito grande com essa substância, mas hoje os limites são de 200 ppm.
LWG - No segmento de couros, existe ainda a certificação LWG, que é o principal selo internacional de sustentabilidade e responsabilidade ambiental voltado especificamente para a indústria do setor. Através do programa, os processos produtivos de curtumes e produtores de couro são avaliados com base nas regulamentações locais e internacionais, e a gestão das substâncias restritas é um dos quesitos avaliados.
CPSC - Quem também tem um protocolo específico é o segmento infantil. Trata-se do CPSC, dos EUA, que atua fortemente no controle dos produtos para serem usados por crianças, como brinquedos, móveis e produtos eletrônicos, por exemplo. Dentro do escopo de análises, esse programa tem um olhar muito rigoroso para a presença dos metais pesados, principalmente o chumbo.
O que esses programas orientativos, normas, legislações têm em comum é a busca pelo aumento da qualidade e segurança dos produtos, a redução do impacto ambiental e também o posicionamento como fóruns permanentes na promoção da gestão global de segurança no uso de substâncias restritas não apenas nos calçados, vestuário e brinquedos, mas em todos os segmentos. A garantia da conformidade dos produtos é atestada através de laudos técnicos emitidos por laboratórios independentes, que por sua vez são acreditados por instituições reconhecidas. Esses laboratórios realizam os testes necessários que detectam a presença ou não das substâncias e, quando for o caso, analisam se elas estão dentro dos limites máximos aceitos pelas normas regulamentadoras. “Às vezes isso ainda não basta e há a necessidade de se incluir na documentação que acompanha os produtos uma declaração de origem, com especificações técnicas. A emissão dessa declaração pode ser feita pela própria empresa fabricante ou exportadora, ou ainda por um laboratório externo. Isso depende muito do contexto, para onde se exporta”, aponta Valdir Soldi, complementando que sem essas informações o produto nem entra no país de destino.
PFAS impõem novos desafios
Dentro desse contexto, existem algumas substâncias que têm recebido uma atenção muito grande nos últimos anos, por representarem risco potencial para a saúde humana e estarem presentes em praticamente tudo o que nós consumimos. São os PFAS, compostos sintéticos perfluoroalquilados, que contêm pelo menos um grupo metil ou metileno totalmente fluorado. Essas substâncias persistentes e bioacomulativas não são eliminadas pelo organismo humano nem se degradam no meio ambiente. “A ligação carbono-fluor é uma das mais fortes no contexto químico, sendo quase impossível rompe-la, por isso são chamadas de substâncias eternas. Para se ter ideia, hoje a estimativa é de existam cerca de 12 mil substâncias catalogadas como PFAS e é improvável que nos dias de hoje ainda exista alguma pessoa que não tenha mantido contato ou que não esteja com algum grau de contaminação por alguma dessas substâncias”, alerta Valdir Soldi.
As pessoas passaram a ter contato com esse tipo de substância a partir da década de 1940, com o surgimento do Teflon e as suas diversas aplicações, que tiveram uma grande aceitação mundo afora devido às propriedades antiaderentes desse material.
Variações desses compósitos passaram mais tarde a ser utilizadas basicamente para impermeabilização, devido alta resistência à água e ao óleo.
A indústria do calçado e do vestuário também se apropriou dessas características para incrementar os seus produtos com novas características funcionais. O grande problema é que esses produtos podem causar lesões hepáticas, doenças da tiroide, infertilidade, além de serem carcinogênicos.
São muitos os materiais que podem conter algum PFAS na sua composição. Eles são de grupos diferentes, mas todos contém a ligação carbono-flúor no seu preparo. O problema para esse controle é que, apesar de ser uma questão prioritária, os testes de detecção são ainda caros, devido à complexidade das metologias das análises, que obedecem a padrões rígidos.
Testes para a detecção
Hoje, existem basicamente dois métodos para a identificação dessas substâncias, primeiro é para determinar a presença ou não de flúor total ou fluoreto. Se o resultado de uma análise for negativo, é porque não há presença detectável de PFAS.
O segundo método é por extração com o uso de solvente orgânico. Neste caso é preciso fazer a análise quantitativa de cada um dos PFAS. A lista da Afirm, por exemplo, tem hoje 54 substâncias catalogadas e existem padrões de análise específicos para cada uma delas. Além de ainda não se ter padrões disponíveis para todas essas substâncias, o limite de detecção é bastante baixo, na ordem de 100 partes por bilhão (ppb), o que dificulta ainda mais a disponibilização de todos os testes necessários.
Em virtude disso, o mais comum hoje é focar as análises no método um (detecção de flúor total). E aí tem outra questão a ser considerada, pois existe o flúor orgânico e o flúor inorgânico e esse teste não diferencia um do outro. Apenas determina se há presença ou não de flúor, ou seja, não identifica qual é o PFAS relacionado a ele.
Um dos pontos positivos do primeiro tipo de teste é que o limite para a detecção já é maior, na ordem de 20 ppm (individual) e 50 ppm na soma de dois ou mais. Então, na prática, o indicado é primeiro fazer o teste de flúor total. Se der negativo a investigação pode ser concluída. Mas se o resultado for positivo, realiza-se a segunda metodologia, por ser mais detalhada.
Outro desafio é que o produto analisado pode não apresentar PFAS na hora da análise, mas a substância aparecer, por exemplo, na caixa em que ele vai ser embalado. Portanto, o risco de contaminação é muito grande para o fabricante. Portanto, quanto mais bem estruturado for o programa de gerenciamento dos materiais, menor será a possibilidade de a empresa passar por algum problema dessa natureza.
O caminho é a inovação
“Voltando para o passado, podemos lembrar o exemplo dos ftalatos. Pois, anos atrás, chegávamos a detectar a presença de 35 mil partes de ftalatos por milhão em calçados, sendo que o limite para o segmento infantil é de, no máximo, 500ppm.
Naquela época, 40% dos calçados analisados eram reprovados. Hoje, o índice de reprovação não chega a 5% do total de calçados infantis que passam por testes no IBTeC”, relembra Valdir Soldi.
Essa evolução não se deu de uma hora para outra, foi um intenso trabalho que envolveu aos poucos toda a cadeia de abastecimento. As grandes marcas deram o exemplo, sendo pioneiras em investir na capacitação dos seus fornecedores e estabelecer que para continuar como parceiro no suprimento essas empresas não teriam outro caminho a não ser mudarem seus procedimentos e adequarem os materiais.
Usados para aumentar a flexibilidade de polímeros como o PVC - que é um material bastante presente na indústria calçadista -, os ftalatos são potencialmente perigosos para o sistema reprodutor masculino e feminino, interferem no sistema hormonal e metabólico, podem afetar o desenvolvimento cognitivo de crianças, além de oferecer riscos de malformações em fetos, causar câncer de mama, toxicidade hepática e renal, e outros males, como problemas respiratórios (asma e alergias, por exemplo).
Por todos esses riscos, a indústria de base teve que encontrar alternativas para evitar o uso dessa substância. A Elequeiroz e a Resypar, duas grandes fabricantes de plastificantes, já utilizam base vegetal em seus plastificantes, em substituição aos ftalatos. Já a Lanxess, outra empresa muito importante para o setor, tem plastificantes à base de glicerídeos, acetilados e adipatos.
Outro material utilizado em PVC são os estabilizantes. Existem estabilizantes metálicos que também são bioacumulativos, alergênicos, cancerígenos, entre eles o cádmio. A Inbra, que tem larga tradição no mercado, criou estabilizantes líquidos, menos
nocivos, em base de cálcio e zinco para atender a necessidade de produção de PVC flexível usado, por exemplo, na fabricação de mangueiras, laminados, brinquedos e calçados.
O diretor técnico da Dublauto Gaúcha, Evandro Daniel Wolfart da Silva, percebe que há no mercado um aumento gradual da responsabilidade por parte das empresas com relação ao uso de substâncias como os PFAS. “Com o aumento dos estudos e das regulamentações globais, do conhecimento público e das exigências de consumidores, e dos processos judiciais, os PFAS cresceram em visibilidade e se tornaram um risco estratégico para os negócios. Neste panorama, é de suma importância que as empresas procurem alternativas seguras e sustentáveis para adequar e substituir o seu uso na fabricação de seus produtos”, avisa.
Lembrando ainda que o ciclo de vida dos têxteis tratados com PFAS, da produção ao descarte, resulta em liberação contínua no meio ambiente, ele comenta que é crucial reduzir, tanto o impacto ambiental, quanto os riscos à saúde humana associados aos produtos químicos persistentes.
Utilizadas nos produtos têxteis por suas propriedades de repelência à água e ao óleo e resistência a manchas e sujidades, essas substâncias são frequentemente encontradas em roupas como capas de chuva e agasalhos, equipamentos para atividades ao ar livre e de alto desempenho, roupas esportivas e para atividades físicas, uniformes e vestuário de trabalho, e também em itens domésticos (carpetes, tapetes, estofados), tendas e lonas, além dos calçados.
No caso dos tratamentos têxteis para calçados e vestuário, uma das expertises da Dublauto Gaúcha é o tratamento hidrorrepelente utilizado para conferir resistência à água, mantendo-os respiráveis e evitando que fiquem encharcados, além de garantir que sejam resistentes a sujidades. “O maior desafio realmente está na substituição por substâncias que apresentem a mesma performance oferecida pelos tratamentos à base de flúor-carbono em categorias de alto desempenho, como equipamentos para atividades ao ar livre e roupas de trabalho. Nesta busca, além de que tenham a mesma funcionalidade com relação à água, é importante que apresentem um comportamento satisfatório também contra óleo e sujeiras, assim como resistência a ciclos de lavagens”,
detalha o empresário.
Outro desafio está na complexidade de solicitações de conformidade, pois existem regulamentações que variam de região para região, dificultando a adaptação a limites que estão em constante evolução. “Por exemplo, o que pode ser utilizado no Brasil, talvez já não possa mais ser utilizado na Europa ou mesmo nos EUA ou outras regiões”, exemplifica.
Em seu histórico de pesquisas e desenvolvimentos, a Dublauto Gaúcha adota uma atitude atenta e proativa frente a assuntos relativos à sustentabilidade, assim como a demandas de legislações vigentes e necessidades específicas de clientes. Neste caminho, já há mais de 12 anos, eliminou o uso de produtos com PFAS de cadeia longa (8 carbonos, ou C8) e passou a usar PFAS de cadeia curta (6 carbonos, ou C6), atualmente ainda utilizado e aceito em alguns mercados.
Na transição gradual nessa busca por ativos livres de PFAS, nos últimos anos, tem testado vários produtos livres de flúor solicitados a diferentes fornecedores para obter o melhor desempenho de hidrorrepelência e resistência a lavagens.
Com este esforço voltado para segurança e sustentabilidade, dentre os vários produtos testados livres de flúor, o que demonstrou melhor performance nos testes realizados em laboratório e também na produção industrial foi o tratamento de base biotecnológica, como por exemplo, o óleo de palma, que passou por vários testes de penetração e resistência à água com metodologias desenvolvidas internamente na empresa para analisar comparativamente a sua performance frente a têxteis tratados com F/C (6).
Desenvolvimentos que buscam segurança e sustentabilidade têm sempre um grau elevado de demanda e aceitação no mercado. Com os estudos científicos cada vez mais aprofundados e a pressão para uma regulamentação mais abrangente para todo o grupo de substâncias PFAS, além do aumento do conhecimento e exigência do consumidor por produtos mais confortáveis, seguros e sustentáveis, a atenção dos fornecedores e fabricantes de calçados e vestuário nesta direção é cada vez mais evidente.

Na Dublauto, o tratamento hidrorrepelente tem destaque nos serviços de beneficiamento oferecidos, principalmente para artigos de segurança e funcionais, como vestuário, calçados de segurança e têxteis funcionais. “O destaque está para segmentos que buscam o atendimento a normas, no caso do setor de equipamentos de segurança, assim como o de performance, no sentido de garantir o maior conforto no uso da peça têxtil pelo usuário”, contextualiza Evandro.
Hoje, o volume de faturamento/vendas da empresa vindo de artigos dessa linha representam em torno de 4% do total, mas a meta para médio e longo prazo é elevar esse índice a 15%. “Essa previsão se dá pelo lançamento de cabedal plano de alta performance para resistência mecânica - o Cabedal TPU- Tech, que utiliza fio de TPU e recebe tratamento hidrorrepelente para alinhamento junto às normas de segurança para calçados Tipo S2 - que resistem à penetração e absorção de água, ideal para ambientes úmidos.
A TNS Nano busca apoiar a transição da cadeia para soluções mais sustentáveis, mantendo três pilares centrais: performance funcional, segurança química e viabilidade industrial. A meta é oferecer ao mercado alternativas que atendam às novas exigências de substâncias restritas sem comprometer a qualidade e o desempenho dos produtos acabados. Conforme o diretor Comercial da empresa, Daniel Duggan, o principal desafio é substituir uma química historicamente muito eficiente em redução de energia superficial. Pois, os acabamentos fluorados conseguem combinar, em uma mesma solução, repelência à água e ao óleo, com boa durabilidade ao uso e às lavagens. “Nas alternativas livres de PFAS, a hidrorrepelência já apresenta soluções tecnicamente viáveis para muitas aplicações. Porém, a óleo repelência ainda é o ponto mais complexo, especialmente em artigos técnicos ou de alta exigência. Outro desafio é manter o equilíbrio entre desempenho, toque, cor, respirabilidade, compatibilidade com outros auxiliares têxteis, estabilidade de banho, produtividade industrial e custo final”, observa Daniel Duggan. No seu entendimento, a substituição, portanto, não é apenas a troca de
uma matéria-prima por outra. É uma substituição que exige desenvolvimento técnico, ajuste de processo, validação em diferentes substratos e controle de parâmetros como pH, pick-up, temperatura de cura, tempo de cura e resistência à lavagem. Entre 2024 e 2025, a TNS Nano desenvolveu e lançou o DryGuard como uma solução técnica hidrorrepelente livre de fluorcarbono para o mercado têxtil. A tecnologia surgiu da necessidade de oferecer ao setor uma alternativa funcional alinhada às novas exigências de substâncias restritas, sem depender de compostos fluorados e mantendo a viabilidade de aplicação industrial. A solução foi estruturada para atender beneficiadores, fabricantes e marcas que buscam reduzir o uso de PFAS em acabamentos têxteis sem abrir mão do desempenho hidrorrepelente. “Na prática, em um tecido sem acabamento hidrorrepelente, a gota de água tende a ser rapidamente absorvida pela estrutura têxtil. Já em um tecido tratado com DryGuard, a superfície passa a apresentar comportamento
hidrorrepelente, fazendo com que a gota permaneça mais esférica e tenha menor tendência de penetração no material. A absorção dos líquidos base água pode até acontecer, mas após um longo período de contato”, explica Daniel.
A evolução técnica foi alcançada por meio do desenvolvimento de uma formulação não fluorada, baseada em compostos orgânicos não halogenados, capaz de ser aplicada em processos convencionais da indústria têxtil, como foulard e esgotamento. A tecnologia foi desenhada para preservar características importantes do artigo acabado, como toque, coloração e manutenção da aparência original do tecido, além de apresentar resistência a ciclos de lavagem. Outro diferencial é a possibilidade de ajuste conforme o substrato e o processo produtivo do cliente. A aplicação pode ser personalizada de acordo com a fibra, construção do tecido, concentração de uso, pH do banho, pick-up e condições de cura.
O produto passou por ensaios técnicos de hidrorrepelência e avaliação de desempenho superficial. Um dos principais testes realizados foi a AATCC 22:2017 – Water Repellency: Spray Test, método internacional utilizado para avaliar a repelência à água em tecidos. “Nesse ensaio, o DryGuard apresentou nota 80/100, indicando molhadura apenas em pontos específicos da superfície do tecido. Além disso, o produto foi avaliado por ângulo de contato, ensaio que quantifica a hidrofobicidade da superfície. Em tecido de poliéster tratado, o produto apresentou ângulo de contato de 122°, antes e após 15 ciclos de lavagem. Esse resultado é relevante porque demonstra que a superfície mantém comportamento hidrorrepelente mesmo após lavagens, indicando durabilidade da funcionalidade aplicada”, detalha o diretor comercial.
A aceitação inicial do produto foi técnica e gradual. Empresas com maior exposição a mercados regulados, exportação, marcas internacionais e programas de substâncias restritas compreenderam mais rapidamente o valor da solução, pois já sofriam pressão para reduzir ou eliminar fluorcarbonados de seus processos. Em clientes mais orientados por custo ou acostumados à performance histórica dos acabamentos fluorados, a adoção exigiu mais demonstração técnica e testes comparativos. “Isso é natural em tecnologias de substituição, especialmente quando o mercado precisa equilibrar sustentabilidade, performance e viabilidade industrial”, contextualiza Daniel.
O DryGuard se tornou uma linha estratégica dentro do portfólio de soluções funcionais da TNS Nano para o mercado têxtil. Trata-se de uma tecnologia em expansão, com relevância crescente à medida que marcas, beneficiadores, fabricantes e fornecedores de componentes buscam alternativas livres de fluorcarbono.
A TNS Nano entende o DryGuard como uma plataforma importante para apoiar a transição da indústria para acabamentos funcionais mais alinhados às exigências atuais de sustentabilidade, desempenho e conformidade química. “No médio prazo, a meta é ampliar a adoção do produto como alternativa técnica livre de fluorcarbono para beneficiadores, marcas e fornecedores de materiais. No longo prazo, o objetivo é consolidar a solução como uma referência em hidrorrepelência livre de PFAS na América
Latina, expandindo a tecnologia para diferentes bases têxteis e aplicações técnicas”, conclui Daniel.

Cada vez mais, diante da amplitude do universo de substâncias restritas, cabe às empresas direcionarem seus esforços para aquelas mais recorrentes em seus processos e produtos. Essas listagens, estabelecidas por países e também por marcas, funcionam como importantes barreiras técnicas voltadas à proteção dos consumidores e do meio ambiente, e passam por atualizações constantes, seja na inclusão de novas substâncias sob controle, seja na revisão dos limites aceitáveis. Nesse contexto, torna-se essencial que as empresas busquem informações confiáveis sobre a presença dessas substâncias específicas, seus limites e as aplicações nos produtos, e o caminho é a construção de uma relação sólida
com toda a cadeia de base, exigindo dos seus fornecedores a apresentação de laudos independentes que comprovem a qualidade e a conformidade dos materiais utilizados. Pois, dessa entrega dependem nada menos do que a competitividade e a sobrevivência das empresas.



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