FIOS DE RESISTÊNCIA: Desafios econômicos e barreiras internacionais testam a indústria têxtil brasileira, que responde com tecnologia de ponta e força de mercado
- há 11 minutos
- 9 min de leitura
• Luís Vieira

A indústria têxtil e de confecção brasileira atravessa um período de profundas transformações. O setor convive simultaneamente com desafios internos, como juros reais elevados, alto custo do capital, carga tributária complexa, Custo Brasil e escassez de mão de obra qualificada, e com desafios externos, como o crescimento das importações, especialmente por meio das plataformas digitais, a concorrência internacional em condições frequentemente desiguais e as crescentes exigências ambientais e de rastreabilidade dos mercados consumidores.
O cenário geopolítico também vem alterando profundamente as cadeias globais de valor. Diversos países passaram a adotar políticas industriais, incentivos públicos e instrumentos de defesa comercial para fortalecer suas bases produtivas. E para complementar, o setor adiciona ainda preocupações com a decisão, em julho, do governo dos Estados Unidos para aplicar novas tarifas às exportações brasileiras. O anúncio gerou um clima de insegurança no comércio internacional e o receio de que o fortalecimento da base industrial no País fique comprometido, visto que os EUA são um importante mercado para as exportações brasileiras.
A competitividade da indústria não depende de uma única medida, mas de um conjunto de ações coordenadas. É necessário reduzir o custo Brasil, ampliar o acesso ao crédito para investimentos, diminuir o custo do capital, simplificar o sistema tributário e assegurar isonomia tributária e regulatória entre os produtos nacionais e os importados.
Ao mesmo tempo, é fundamental acelerar os investimentos em inovação, digitalização, sustentabilidade, qualificação profissional e internacionalização das empresas. O fortalecimento de uma política industrial consistente e de longo prazo também é essencial para oferecer previsibilidade aos investimentos.
O setor vem fazendo sua parte. As empresas investem continuamente em modernização tecnológica, sustentabilidade, economia circular, inovação em produtos, aumento da produtividade e inserção internacional. Iniciativas como o Programa de Internacionalização da Indústria Têxtil e de Moda Brasileira (Texbrasil), realizado pela Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), contribuem para ampliar a presença das empresas brasileiras no mercado externo, enquanto ações voltadas à descarbonização e à rastreabilidade fortalecem a competitividade da cadeia produtiva.
No campo institucional, a Abit atua na defesa da competitividade da indústria nacional, apoiando políticas industriais permanentes, instrumentos modernos de defesa comercial e medidas que promovam maior equilíbrio concorrencial. Na avaliação do diretor-superintendente da entidade, Fernando Valente Pimentel, há avanços importantes a serem ainda consolidados. O País precisa estruturar uma política industrial de longo prazo, ampliar os instrumentos de financiamento por meio do Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES), da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), fortalecer os mecanismos de defesa comercial, combater a informalidade e a concorrência desleal e assegurar condições equitativas de competição entre os produtos fabricados no Brasil e os importados.
E, ao mesmo tempo, é preciso restabelecer as negociações com os Estados Unidos, com quem o Brasil mantém uma longa e relevante relação econômica e comercial, construída ao longo de décadas, que sempre se caracterizou pelo diálogo e pela complementaridade em diversos setores. “A Abit defende que eventuais divergências comerciais sejam tratadas por meio da negociação, do diálogo institucional e dos mecanismos previstos no sistema internacional de comércio, buscando soluções que preservem o fluxo de negócios e os interesses de ambos os países”, ressalta o dirigente Fernando Pimentel.
Febratex entrelaça a força do setor

Em meio à essa situação complexa e muito desafiadora, o setor têxtil celebra a realização da 19a Edição da Feira Brasileira para a Indústria Têxtil e de Confecção (Febratex). Reconhecido como o maior do segmento na América Latina, o evento acontece entre os dias 18 e 21 de agosto, estreiando o novo espaço do Parque Vila Germânica, em Blumenau/SC, que ampliou a capacidade do complexo em quase 15%. Segundo os organizadores, a edição de 2026 é a maior já realizada. Com expansão da área expositiva para 40 mil m² distribuídos em 10 pavilhões, o evento reúne cerca de 670 expositores, mais de 3.300 marcas de 65 países e deve receber aproximadamente 80 mil visitantes. “A edição de 2026 acompanha o crescimento da feira e atende à alta demanda por estandes, consolidando Blumenau como um dos principais centros de eventos de negócios do País, além de reforçar a sua posição como a principal feira têxtil das Américas”, comemora o presidente do Febratex Group, Helvio Roberto Pompeo Madeira.
No entendimento de Helvio, hoje, a competitividade no setor têxtil depende de quatro pilares: inovação, tecnologia, sustentabilidade e rapidez para responder ao mercado. É exatamente aí que entra a Febratex. A feira conecta indústrias, fornecedores, pesquisadores e compradores para colocar essas soluções em prática. Ao reunir as mentes e as empresas que movem o setor, o evento acelera parcerias, estimula investimentos e abre caminhos para o crescimento sustentável da indústria brasileira.
A Febratex 2026 será palco de importantes lançamentos e novidades que refletem os avanços da indústria têxtil. Os expositores reservaram grandes anúncios para serem apresentados em primeira mão durante a mostra, como é o caso de uma nova máquina da Epson, que promete ser um dos destaques do evento em termos de inovação e tecnologia.
Na frente da sustentabilidade, há iniciativas que mostram como a inovação pode contribuir para uma indústria têxtil mais consciente. Um exemplo é a camiseta ar.voree, da Malwee, que veste a equipe durante o evento e representa uma solução inovadora em materiais e processos sustentáveis. A tecnologia foi apresentada ao mercado durante o Febratex Summit, no ano passado. A solução, inédita no Brasil, utiliza uma malha capaz de capturar CO2 do ambiente e eliminá-lo de forma segura durante as lavagens domésticas. “Agora, a inovação deixa o espaço de exposição e passa a fazer parte da experiência do próprio evento: as camisetas da equipe organizadora da Febratex reforçam o compromisso da feira em transformar em prática as soluções que apresenta ao mercado. Ao todo, são 160 peças utilizadas pelas equipes da organização e da Malwee, com potencial de captura de CO2 equivalente ao ciclo de absorção de até 160 árvores adultas, considerando o uso contínuo e as lavagens previstas”, explica Helvio Pompeo.

Hub de negócios e conhecimento
Mais do que uma exposição de máquinas, a Febratex é um ambiente estratégico para geração de negócios, networking e tomada de decisões. Parte significativa das negociações anuais do setor tem origem na feira, que conecta fabricantes, compradores, pesquisadores e especialistas em inovação. Além da área de exposição, a programação reúne fóruns, workshops e espaços voltados ao conhecimento. Iniciativas como o Preview Febratex Summit, Radar Têxtil, Workshop Priscila Faiad e Startup Corner apresentam tendências, tecnologias, inteligência artificial, automação e soluções para aumentar a competitividade da indústria.
Tendências globais que costuram o futuro

O diretor-superintendente da Abit, Fernando Pimentel, considera que a indústria têxtil brasileira reúne atributos que poucos países possuem: uma cadeia produtiva completa, diversidade de matérias-primas, sólida capacidade industrial, tradição em inovação, crescente compromisso com a sustentabilidade e um ecossistema que integra empresas, universidades, institutos de pesquisa, fabricantes de máquinas e fornecedores de insumos.
Ao combinar essas vantagens com um ambiente econômico mais competitivo e uma política industrial consistente e de longo prazo, o Brasil reúne todas as condições para consolidar sua posição entre os principais polos têxteis do mundo, impulsionando a inovação, gerando empregos qualificados, promovendo o desenvolvimento regional e ampliando sua inserção nos mercados internacionais. E os tecidos sustentáveis e tecnológicos representam uma evolução natural da indústria. A sustentabilidade deixou de ser apenas um diferencial competitivo para se tornar uma exigência do mercado. Da mesma forma, consumidores e clientes demandam produtos cada vez mais inteligentes, confortáveis, duráveis e funcionais.

Conforme o dirigente setorial, a indústria brasileira reúne condições muito favoráveis para liderar esse movimento. “O País conta com uma cadeia produtiva completa, centros de pesquisa reconhecidos internacionalmente, universidades, fabricantes de máquinas, produtores de fibras naturais e sintéticas e empresas altamente inovadoras. Esse ecossistema possibilita o desenvolvimento de soluções de alto valor agregado para diversos segmentos, da moda aos têxteis técnicos”, contextualiza Fernando, listando exemplos de soluções que proporcionam segurança e proteção ao trabalhador, funcionalidade, conforto, saúde, alta performance e sustentabilidade.
PROTEÇÃO NO TRABALHO
Os equipamentos de proteção individual evoluíram significativamente nos últimos anos. Atualmente, existem tecidos resistentes ao fogo, ao arco elétrico, a produtos químicos, a cortes e a altas temperaturas, oferecendo maior segurança sem comprometer o conforto e a mobilidade.
FUNCIONALIDADE
Os tecidos inteligentes representam um dos principais avanços recentes. Já existem materiais capazes de regular a temperatura corporal, monitorar movimentos, controlar a umidade e até incorporar sensores eletrônicos para diferentes aplicações.
CONFORTO E SAÚDE DO USUÁRIO
Novos tecidos oferecem elevada respirabilidade, controle térmico, elasticidade, gerenciamento da umidade e maior leveza, proporcionando conforto em diferentes condições climáticas e de uso. Tecidos com proteção UV, propriedades antimicrobianas, controle de odores e funcionalidades voltadas ao bem-estar e até ao monitoramento de parâmetros fisiológicos já fazem parte da realidade em diversas aplicações.
ALTA PERFORMANCE
O desenvolvimento de fibras de alta resistência, tecidos ultraleves, materiais de secagem rápida e estruturas com elevada resistência mecânica ampliou significativamente as aplicações nos segmentos esportivo, industrial e militar.
SUSTENTABILIDADE DAS EMPRESAS E MARCAS
O avanço da reciclagem têxtil, tanto mecânica quanto química, aliado ao desenvolvimento de fibras recicladas e ao reaproveitamento de resíduos industriais e pós-consumo, vem transformando o conceito de economia circular na indústria.
Foco em materiais e inovação industrial
A cadeia de fornecimento tornou-se um dos principais fatores de competitividade da indústria têxtil. Clientes e consumidores exigem cada vez mais transparência quanto à origem das matérias-primas, rastreabilidade dos processos produtivos, redução das emissões de carbono, responsabilidade social e conformidade ambiental.
Como consequência, toda a cadeia do produtor de fibras à confecção passou a operar de forma mais integrada, digitalizada e transparente.
Entre os desenvolvimentos oferecidos pela indústria de fornecimento de materiais, a consolidação da reciclagem têxtil de fibra para fibra (fiber-to-fiber) talvez seja um dos avanços mais relevantes da última década.
A possibilidade de transformar resíduos têxteis em novas fibras reduz o consumo de recursos naturais, diminui a geração de resíduos e aproxima o setor de um modelo efetivamente circular, um dos principais objetivos da indústria têxtil mundial.
A indústria de máquinas e equipamentos também impacta fortemente o desenvolvimento do setor. A digitalização dos processos produtivos, por exemplo, talvez represente a transformação mais profunda da indústria têxtil nas últimas décadas.
Máquinas cada vez mais automatizadas, inteligência artificial aplicada ao controle de qualidade, impressão digital, sistemas robotizados de corte, monitoramento em tempo real da produção e tecnologias associadas à Indústria 4.0 vêm elevando significativamente a produtividade, reduzindo desperdícios e aumentando a flexibilidade da produção.
Mais recentemente, começam a ganhar espaço aplicações de inteligência artificial voltadas à classificação automática de resíduos têxteis para reciclagem, ampliando ainda mais o potencial da economia circular.
Kelp
Hoje, a fronteira da moda está na bioengenharia e a tecnologia, já aplicada em tecidos de alta performance, promete redefinir a relação entre vestuário, saúde e bem-estar. Um tecido inteligente, capaz de estimular a circulação sanguínea durante o exercício, combater a celulite e ainda acelerar a recuperação muscular é a proposta da tecnologia Kelp, desenvolvida com micropartículas biocerâmicas que transformam o calor do corpo em benefícios fisiológicos. “A Kelp é uma tecnologia a favor da vida. Ela traduz o encontro entre engenharia e biologia para oferecer mais qualidade em todas as dimensões do nosso cotidiano, da saúde e performance física à estética e ao conforto”, explica o diretor da CTM, empresa que traz a tecnologia têxtil ao mercado brasileiro, Carlos Modolo.

Mais do que um material têxtil, a Kelp se propõe como um “wearable terapêutico”. Suas micropartículas de biocerâmicas absorvem o calor corporal e o refletem em forma de infravermelho longo (IVL). Com isso, a radiação infravermelha de longo alcance (FIR) é capaz de penetrar na pele e estimular as moléculas de água do corpo, promovendo liberação de óxido nítrico causando a vasodilatação e por consequência melhorando a circulação sanguínea. O resultado são efeitos que vão da recuperação muscular acelerada à melhora da firmeza da pele, além de ação antibacteriana.
Tencel
Em um cenário em que a responsabilidade ambiental se torna cada vez mais essencial em diferentes setores, a marca Flavia Aranha expande as pesquisas sobre fibras inovadoras e anuncia colaboração com a Tencel, principal marca de fibras sustentáveis do Lenzing Group, e a fiação Textil Carmem.

Nesse contexto, a Tencel desempenha um papel essencial ao priorizar a eficiência de recursos e a redução de impactos ambientais ao longo do processo de produção. As fibras da marca possuem certificação ClimatePartner, devido às suas ações, que incluem metas de redução de emissões, monitoramento da pegada de carbono e medidas de mitigação. “As fibras Tencel usadas pela Textil Carmen contam com tecnologia de identificação que permite o rastreamento físico em todas as etapas do processo produtivo e são produzidas com pelo menos 50% menos emissões de carbono e consumo de água”, afirma a gerente de Desenvolvimento de Negócios Têxteis do Grupo Lenzing na América do Sul, Juliana Jabour.
“Desde a minha primeira coleção, há 16 anos, já trabalhávamos com fibras sustentáveis. Foi muito interessante criar, juntos, um tecido exclusivo, buscando uma base e um caimento específicos para a coleção. Esses dois parceiros fazem parte da nossa trajetória há muitos anos, e oficializar essa colaboração foi uma forma de fortalecer ainda mais esse vínculo com marcas nas quais acreditamos e que valorizamos muito”, ressalta a estilista Flavia Aranha.
Diklatex
Propriedades que antes pertenciam ao universo esportivo agora estão à disposição das grandes marcas para atender ao desejo do mercado por roupas capazes de acompanhar diferentes momentos do dia, transitando entre trabalho, deslocamentos, compromissos sociais e lazer sem abrir mão da elegância.
Com a coleção Cyber City, a Diklatex apresenta ao mercado o Casual Tech feminino, linha de tecidos tecnológicos e inteligentes para peças que não amassam, que mantém o corpo na temperatura ideal, que secam mais rapidamente e que são resistentes a muitas lavagens.

Produzida em poliamida com elastano, a tecnologia combina leveza, elasticidade e resistência com uma superfície maquinetada que remete à alfaiataria contemporânea.
O resultado é uma estética sofisticada associada a atributos funcionais como conforto prolongado, mobilidade, proteção UV 50+ e ação antimicrobiana.
“A moda passa por uma transformação em que o tecido assume um papel cada vez mais estratégico na experiência de uso. Não se trata mais de criar tecidos para uma única função. Desenvolvemos soluções que acompanham o comportamento, para peças que transitam, se adaptam e permanecem relevantes ao longo do dia e do tempo”, explica o CEO da Diklatex, André Jativa.



Comentários