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Estudo da aplicação de agentes fúngicos em componentes para calçados visando a minimização de impactos de contaminação

  • há 1 dia
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1. Introdução

A crescente incidência de contaminações por fungos e bactérias em materiais têxteis, como poliéster, algodão, mescla de poliéster com algodão, atacadores, laminados sintéticos e fachetes, assim como em calçados montados, tem gerado preocupações tanto no setor industrial quanto na saúde pública. Esses microrganismos podem comprometer a integridade física dos tecidos, alterar suas propriedades funcionais e estéticas, além de representar riscos à saúde dos usuários. O aumento dessas infestações está relacionado a fatores como condições ambientais propícias, resistência crescente dos microrganismos aos tratamentos convencionais e aumento das temperaturas, que favorecem o desenvolvimento e a adaptação de fungos, conforme demonstrado em estudos da Universidade de Duke (GUSA et al., 2023). Além disso, a utilização crescente de matérias-primas naturais, como fibras de bambu e bananeira, em processos de fabricação têxtil tem contribuído para uma maior suscetibilidade ao ataque fúngico, ressaltando a necessidade de tratamentos antimicrobianos adequados para garantir a durabilidade e funcionalidade dos tecidos (XI et al., 2016; YANG et al., 2025; REPOSITORIO.UNESP, 2018).


2. Fundamentação teórica

Materiais têxteis sintéticos, como o poliéster, são amplamente utilizados devido à sua durabilidade e custo-benefício. No entanto, sua estrutura química, composta por polímeros derivados do petróleo, torna-os suscetíveis à ação de microrganismos. Estudos demonstram que fungos filamentosos, como Aspergillus niger e Fusarium spp., possuem enzimas capazes de degradar polímeros sintéticos, facilitando sua penetração e crescimento nos tecidos (IMPERIAL COLLEGE, 2017).

A resistência adquirida por algumas cepas bacterianas, como Staphylococcus aureus e Escherichia coli aos tratamentos convencionais, como lavagem com detergentes comuns, uso de água quente e produtos químicos de limpeza tradicionais, contribui para o agravamento do problema. Estudos mostram que E. coli pode formar biofilmes em tecidos como algodão, poliéster e mesclas poliéster-algodão, sendo que a formação de biofilme é influenciada pelo tipo de tecido e pelas condições ambientais, como temperatura e umidade (DIXIT; VARSHNEY; GUPTA; SHARMA, 2024).

Além dos danos físicos e estéticos aos materiais, a presença de biofilmes em tecidos e laminados sintéticos compromete significativamente a eficácia dos processos de higienização e conservação, uma vez que esses sistemas microbianos complexos dificultam a ação de agentes químicos convencionais. Essa característica reforça a necessidade do uso preventivo de agentes biocidas com ação comprovada contra microrganismos formadores de biofilme, especialmente em ambientes industriais e de armazenamento com elevada umidade e temperatura (FLEMMING; WINGENDER, 2010; NADIM et al., 2019).

A contaminação microbiana nos tecidos pode resultar em diversos danos, incluindo alterações na cor, odor desagradável e degradação da resistência mecânica. Ademais, a produção de micotoxinas por fungos patogênicos pode representar riscos à saúde humana, afetando órgãos como fígado e rins (CASTRO et al., 2019).

Diante desse cenário, o uso de soluções biocidas tem se mostrado eficaz no controle da proliferação microbiana em materiais têxteis. Esses agentes, de origem química, atuam inibindo o crescimento ou eliminando microrganismos presentes nos tecidos. A aplicação de biocidas não apenas prolonga a vida útil dos materiais, mas também assegura a qualidade e segurança dos produtos têxteis bem como da saúde humana (PREMIUMBASIC, 2021).


2.1 Ação biocida na indústria têxtil: necessidade e sustentabilidade

A aplicação de agentes biocidas em materiais têxteis é fundamental para prevenir a proliferação de microrganismos que podem comprometer a integridade dos tecidos e representar riscos à saúde humana. Estudos demonstram que tecidos tratados com biocidas apresentam resistência à formação de biofilmes por bactérias como Escherichia coli, Staphylococcus aureus e Klebsiella pneumoniae, patógenos frequentemente associados a infecções hospitalares e contaminação cruzada em ambientes clínicos (DIXIT et al., 2024). Além disso, a presença de microrganismos nos tecidos pode causar efeitos adversos como descoloração, decomposição das fibras, redução da resistência mecânica e emissão de odores desagradáveis (GIGLIO et al., 2013). A ATC Biocides destaca a importância do uso de biocidas na indústria têxtil para prevenir a deterioração de produtos por fungos, bactérias e outros micro-organismos, ressaltando que a aplicação de biocidas se torna essencial para garantir a durabilidade, a higiene dos produtos têxteis e a segurança dos consumidores e das marcas (ATC BIOCIDES, 2025). A evolução das tecnologias de ação biocida também está alinhada com as tendências de sustentabilidade, buscando alternativas que minimizem o impacto ambiental. Biocidas e métodos de aplicação que seguem padrões de segurança e certificações reconhecidas, como ZDHC (Zero Discharge of Hazardous Chemicals), estão ganhando espaço, proporcionando soluções eficazes contra microrganismos sem comprometer o ecossistema e garantindo a segurança do usuário (JETIR, 2024; HOSSAIN et al., 2024).


3. Materiais e métodos

A coleta dos materiais ocorreu de forma a contemplar a maior ocorrência de reclamações em fabricantes e distribuidores de calçados e de seus componentes, como laminados sintéticos de poliuretano, tecidos e materiais de reforço/enchimento. O produto ATC®ACTYBIO ECO SOFT AVANT já foi aplicado e testado em diferentes artigos, incluindo tecidos de poliéster e algodão, atacadores, fachetes, entre outros, apresentando resultados satisfatórios nas diferentes aplicações. No presente estudo, contudo, o foco recai sobre os laminados sintéticos de poliuretano: os corpos-de-prova foram obtidos de calçados devolvidos de amostras disponíveis em empresas calçadistas, distribuidoras e fabricantes dos laminados.

Para a avaliação dos materiais coletados estes foram submetidos a ensaios em três (3) laboratórios de controle da qualidade do Vale do Sinos. O ensaio de Determinação da Resistência ao ataque fúngico em tecidos foi baseado na Norma ABNT NBR 15275 - Determinação da Resistência ao Ataque Microbiano em Palmilhas, Laminados Sintéticos, Tecido e Solados. Nas amostras com o fungicida aplicado foi utilizado o produto ATC®ACTYBIO ECO SOFT AVANT.

Devido às incertezas iniciais quanto à dosagem e ao tempo de ação do produto aplicado, foram realizados ensaios complementares de envelhecimento das amostras já tratadas, conforme a Norma ABNT NBR 15170 - Calçados e Componentes - Verificação do Envelhecimento por Calor (7 e 14 dias a 50 °C).


4. Resultados

Os resultados estão distribuídos em duas fases. A primeira, com a apresentação dos resultados obtidos nas análises e a segunda, com a análise dos aspectos a serem considerados para a utilização adequada destes materiais e dos fatores que influenciaram nestes resultados.


4.1 Resultados dos ensaios

Nesta seção, são apresentados os resultados das avaliações de dois materiais, nos quais foram aplicados o fungicida ATC®ACTYBIO ECO SOFT AVANT, em comparação com amostras sem a devida proteção, nas quais foram observados danos causados pela ação de fungos e/ou bactérias.


4.1.1 Laminado sintético de poliuretano

Amostras de material obtidas na empresa fabricante dos laminados sintéticos e de amostras retiradas do calçado pronto foram encaminhadas ao Laboratório A e submetidas ao ensaio de Determinação da Resistência ao Ataque Microbiano em palmilhas, laminados sintéticos, tecido e solados conforme a Norma ABNT NBR 15275 apresentaram os seguintes resultados:

Resultados da amostra do fabricante do laminado sintético sem a aplicação de agente de proteção
Resultados da amostra do fabricante do laminado sintético sem a aplicação de agente de proteção
Resultados da amostra retirada do calçado pronto (devolvido pelo cliente)
Resultados da amostra retirada do calçado pronto (devolvido pelo cliente)

Amostras do material com o produto ATC® ACTYBIO ECO SOFT AVANT foram encaminhadas a três (3) laboratórios (A, B e C) e submetidas ao ensaio de Determinação da Resistência ao Ataque Microbiano em palmilhas, laminados sintéticos, tecido e solados conforme a Norma ABNT NBR 15275 e a Norma ABNT NBR 15170 Calçados e Componentes - Verificação do Envelhecimento por Calor (7 e 14 dias a 50 graus). Os resultados obtidos foram:


Resultados da Amostra 1 (Laminado Sintético de Poliuretano Prata) após a aplicação do fungicida e após envelhecimento acelerado
Resultados da Amostra 1 (Laminado Sintético de Poliuretano Prata) após a aplicação do fungicida e após envelhecimento acelerado

Embora tenham sido avaliadas diversas amostras, as figuras 1, 2 e 3 reúnem três imagens representativas, escolhidas de forma a demonstrar de maneira clara os resultados típicos obtidos nas análises.



Resultados da Amostra 2 (Laminado Sintético de Poliuretano Dourado) após a aplicação do fungicida e após envelhecimento acelerado
Resultados da Amostra 2 (Laminado Sintético de Poliuretano Dourado) após a aplicação do fungicida e após envelhecimento acelerado

Após 18 meses da aplicação nestas amostras, o calçado fabricado não apresentou problema algum de contaminação em condições reais de armazenamento.


4.2 Aspectos a serem considerados

As condições adversas e favoráveis à proliferação de fungos e bactérias, identificadas no mercado, referem-se a situações observadas ao longo de 18 meses (de março de 2024 a setembro de 2025), as quais estão descritas a seguir.


4.2.1 Entretela ou material de enchimento contaminado com fungos e/ou bactérias: este problema foi identificado em diversas amostras, e estes migraram para a superfície dos laminados sintéticos, aos quais estavam em contato. A utilização de complementos protegidos contra a ação de fungos e bactérias é a mais recomendada neste caso.


4.2.2 Disposição dos calçados em ambiente inadequado - os calçados, com o cabedal em diversos materiais, ficaram estocados em ambiente úmido e com pouca ventilação, por longos períodos. A remoção foi possível com a aplicação de produtos específicos e de proteção contra fungos e bactérias (a origem do problema também pode estar relacionada à estocagem da matéria-prima no fabricante dos calçados). Recomenda-se que se faça uma sanitização dos ambientes, pelo menos a cada 12 meses, para garantir a segurança na estocagem das matérias-primas e demais produtos.


4.2.3 Material de cabedal contaminado com fungos e bactérias - alguns calçados apresentam manchas coloridas, resultantes de uma reação com outros componentes, como couraças e contrafortes. Dependendo do material, a remoção é possível com a aplicação de produtos específicos e de proteção contra fungos e bactérias.


4.2.4 Transporte em container NOR (frigorífico) - este tipo de transporte oferece o risco de o material ser contaminado, devido à higienização inadequada desse tipo de container. As manchas identificadas nesses materiais são características de bactérias, como a Salmonella spp., identificadas em outra amostra, em ensaios realizados no Laboratório da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Laminados sintéticos com acabamento do tipo metalizado sofrem danos irreversíveis em sua superfície.


4.2.5 Complementos contaminados (papel de enchimento/embalagens) - embalagens fabricadas com materiais reciclados apresentaram um elevado grau de contaminação, tanto em amostras retiradas de calçados devolvidos, como em amostras ainda não utilizadas. A utilização de materiais com proteção contra fungos e bactérias é a mais adequada para este tipo de produto, visto que também podem oferecer proteção adicional aos calçados embalados.


4.2.6 Contaminação dos ambientes pelas enchentes de 2024 - ao analisarmos amostras retiradas de empresas e depósitos que foram atingidos pelas enchentes (materiais e calçados molhados), estas apresentaram um elevado grau de contaminação (grau 4).


5. Considerações gerais

A contaminação por fungos e bactérias em materiais e componentes de calçados requer atenção e controle mais rigoroso, especialmente diante das variações climáticas que favorecem o desenvolvimento microbiano. Pesquisas de campo realizadas nos últimos 18 meses demonstraram aumento significativo dessas ocorrências, reforçando a necessidade de maior controle das matérias-primas por meio de Normas Técnicas atualizadas.

Embora os laminados sintéticos de poliuretano tenham apresentado resistência fúngica adequada, foram identificadas contaminações decorrentes do contato com outros componentes, evidenciando que a proteção isolada de um material não é suficiente.

A aplicação de agentes fúngicos, como o ATC®ACTYBIO ECO SOFT AVANT, demonstrou eficácia nos cenários avaliados, prolongando a durabilidade e reduzindo riscos de contaminação. No entanto, esses agentes devem ser considerados parte de uma estratégia mais ampla, que envolva o monitoramento contínuo das condições de estocagem, higienização adequada de ambientes e embalagens, além de revisões periódicas das normas aplicáveis.

Assim, este estudo destaca a importância da integração entre tecnologia, boas práticas industriais e atualização regulatória, para garantir a segurança, a durabilidade e a competitividade dos produtos no mercado.


Referências

ATC BIOCIDES. Textile Auxiliaries: Biocides for textile preservation. Disponível em: https://atcbiocides.com/industries-served/textile-auxiliaries/.

CASTRO, T. L.; SANTOS, E. L.; OLIVEIRA, M. F. Micotoxinas: impacto na saúde humana e controle em ambientes industriais. Revista de Ciências Farmacêuticas, v. 40, n. 2, p. 123-136, 2019.

DIXIT, Shweta; VARSHNEY, Swati; GUPTA, Deepti; SHARMA, Shilpi. Factors affecting biofilm formation by bacteria on fabrics. International Microbiology, v. 27, p. 1111–1123, 2024. DOI: 10.1007/s10123-023-00460-z.

GIGLIO, M. S. et al. Antimicrobial finishing of textiles using nanomaterials. Brazilian Journal of Microbiology, v. 54, n. 2, p. 457–468, 2023. DOI: 10.1016/j.bjm.2023.02.009.

JETIR. Antimicrobial textile finishing agents derived from natural sources. Journal of Emerging Technologies and Innovative Research, v. 11, n. 5, p. 427–433, 2024. Disponível em: https://www.jetir.org/papers/JETIR2405859.pdf.

NADIM, F. A. et al. Antimicrobial finishes for textiles. Current Trends in Fashion Technology & Textile Engineering, v. 4, n. 5, p. 555–561, 2019. DOI: 10.19080/CTFTTE.2019.04.555646.

IMPERIAL COLLEGE. Biodegradation of Synthetic Polymers by Fungi. London: Imperial College, 2017.

PREMIUMBASIC. Ação biocida em materiais têxteis. Disponível em: https://premiumbasic.com.br/glossario/acao-biocida/.

REPOSITORIO.UNESP. Degradação de tecidos têxteis por microrganismos. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/items/15d1fadc-3c08-4844-937f-e27c0eec300b.

SIGARRA.UP.PT. Resistência bacteriana em têxteis. Disponível em: https://sigarra.up.pt/ffup/en/pub_geral.show_file?pi_doc_id=32947.

XI, L. et al. Resistance of natural bamboo fiber to microorganisms and factors that may affect such resistance. Bioresources, 2016. Disponível em: https://bioresources.cnr.ncsu.edu/resources/resistance-of-natural-bamboo-fiber-to-microorganisms-and-factors-that-may-affect-such-resistance/.

YANG, H. et al. Antifungal susceptibility and durability of banana fibers in textiles. SpringerLink, 2025. Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1007/s43939-025-00294-8.


Natália Weber - técnica química e química industrial da ATC do Brasil Produtos Químicos Ltda.

Dr. Luiz Carlos Robinson - Robinson - treinamentos gerenciais

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