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Consumo de moda vai mudar para uma cultura mais atemporal

Tatiana Ritzel

consultora de desenvolvimento de produtos


Com 25 anos de atuação no mercado calçadista, a consultora de desenvolvimento de produtos, Tatiana Ritzel, tem vivência no cenário brasileiro e em vários países da América Latina com sua empresa, a Compor - Consultoria, Design e Inovação, que em janeiro completará duas décadas de existência, se especializando na área de design de produto e consultoria de moda para o setor coureiro-calçadista. Ao lado do sócio, Caio Graeff, Tatiana desbravou o mercado nacional e os vizinhos latino-americanos, apresentando soluções completas, que vão desde a pesquisa de tendências até a busca por fornecedores de componentes e acompanhamento da produção. O trabalho não se encerra aí. É comum ao dia a dia da empresa o acompanhamento das equipes técnica e comercial, criando estratégias de apresentação dos produtos aos lojistas. Convidamos a consultora para fazer uma análise da situação que vivemos, e para projetar o futuro da moda e do design, especialmente no setor calçadista.


As indústrias de calçados terão que se adaptar para fornecer a um mercado que estará impactado pelas mudanças de comportamento do consumidor final em relação à moda. O consumidor vai mudar suas prioridades de consumo?

T - O consumo vai reduzir. As pessoas vão analisar suas necessidades e buscar produtos de melhor qualidade, dos quais elas realmente estejam necessitando. Depois de definir o que comprar, elas focarão nas marcas que estão em sintonia com os seus objetivos e propósitos de vida.

E como ficará o segmento de moda fast fashion?

T - O formato fast fashion passará por um rearranjo. A gente já percebe uma movimentação das grandes redes e grandes marcas no sentido de adaptar seus calendários de lançamento de coleções. As indústrias da moda certamente produzirão menos quantidade, mas talvez elas consigam equilibrar os resultados a partir da conquista de um consumidor disposto a pagar mais por diferenciais que podem ir do comprometimento social e ambiental das marcas a componentes que promovam o conforto e proteção da saúde, por exemplo. Outra tendência deverá ser a busca por produtos que tenham mais durabilidade, tanto em termos de adequação do design quanto pela qualidade das matérias-primas usadas, os chamados produtos atemporais. Com isto, teremos marcas produzindo moda com maior valor agregado e não tão focadas em must have’s. Consequentemente, a atenção à fatia dos clássicos de suas coleções, que constroem a identidade de uma marca, um conceito do qual estivemos muito afastados nas últimas décadas, será muito maior pelos empresários e estilistas.

Os produtos serão cada vez mais atemporais?

T - As marcas que têm uma razão de ser, uma história para contar, uma identificação com uma fatia do mercado, são as que sobreviverão, independentemente do seu tamanho. Os produtos serão cada vez mais atemporais, focados em qualidade, versatilidade e as que demonstrarem preocupação com todas as pessoas que fazem parte de sua cadeia produtiva e de consumo são que que vão sobreviver.

As coleções serão mais objetivas, racionais, focadas em sustentabilidade, bem-estar e saúde?

T - Neste momento a saúde é o bem mais precioso para as pessoas - saúde do corpo e saúde mental. Então, acreditamos muito que o consumo em todo o planeta refletirá esta preocupação a partir de agora, mais do que nunca. As pessoas buscarão comida mais saudável, sustentabilidade, cuidados com o meio ambiente, cuidados com a higiene, a recuperação das belezas do mundo a partir da despoluição. Saúde é o desejo do futuro - então, tudo vai ter que convergir para este conceito. O sneaker, por exemplo, foi um tênis casual que chegou como uma tendência e se transformou em um clássico, pois havia na época um novo estilo de vida sendo evidenciado e que precisa ser atendido pelas marcas de calçados: produtos que tivessem moda em seu conceito mas que tinham conforto como seu principal propósito. Assim deve acontecer a partir de agora, pós-pandemia, o conceito Wellness (que significa o bem-estar, ao invés de ser associada à ausência de doença. Ser uma pessoa saudável é tornar-se responsável pela sua saúde) deverá ser explorado: mente sã e corpo são.

A tendência é de minimalismo, com as pessoas consumindo menos?

T - A chegada do home office como uma mudança de comportamento nas relações de trabalho impulsiona a tendência homewear, que já vinha sendo proposta com ênfase por marcas de roupas e calçados para o inverno 2020. Com a adesão das pessoas ao trabalho em casa, esta é mais uma tendência que deve se consolidar e que vai exigir das marcas uma dedicação especial. As pessoas buscarão calçados mais confortáveis e mais adequados para usar dentro e fora de casa, e roupas que permitam a atividade profissional em casa sem perder o estilo. Só aí já temos um filão incrível para as marcas explorarem. Antes mesmo da pandemia, a moda já vinha trilhando este caminho.

Como esta mudança afetará as indústrias de calçados?

T - As coleções das indústrias de calçados também deverão sofrer modificações no número de modelos propostos. A expectativa que já está se tornando realidade nas reuniões de criação nas empresas para as quais nós aqui da Compor trabalhamos é de que as marcas busquem coleções mais “enxutas”, com propostas mais assertivas para o seu público, que agora está sendo estudado mais profundamente, para que a fábrica conheça melhor o consumidor para o qual está se dedicando.

O preço não será mais o balizador do mercado?

T - O preço não deverá mais ser o balizador-chave do mercado de consumo. A expectativa é de que as pessoas se disponham a pagar mais por um produto feito com componentes focados na sustentabilidade ambiental, ou de marcas que estejam comprometidas com a sustentabilidade social, a partir de apoio a projetos sociais, com indústrias que se preocupem com a geração de empregos ou com marcas que defendam a proteção aos animais, entre outras ações. A expectativa é de que as pessoas saiam mais humanizadas deste processo, e que passem a ser mais empáticas em relação ao sofrimento de grupos que ficarão em situação de vulnerabilidade justamente a partir da redução do mercado produtivo.

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