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ARTIGO TÉCNICO: O PAPEL DAS NORMAS TÉCNICAS NO DESENVOLVIMENTO DE CALÇADOS CONFORTÁVEIS

há 7 minutos
5 min de leitura

Dr. Eduardo Wüst. e Ma. Juliana Wilborn

Laboratório de Biomecânica IBTeC

Instituto Brasileiro de Tecnologia do Couro, Calçado e Artefatos.


O setor coureiro-calçadista brasileiro conta com uma estrutura consistente de diretrizes desenvolvidas pela Associação Brasileiras de Normas Técnicas (ABNT), especificamente por meio do Comitê Brasileiro do Couro, Calçados e Artefatos de Couro ABNT/CB-11, responsável pela criação e atualização de normas que estabelecem os parâmetros técnicos, normatizados e mensuráveis. A partir destas normas o conforto do calçado deixa de ser uma condição puramente subjetiva, podendo ser medido, quantificado e avaliado de maneira clara e objetiva.

A criação e a aplicação das normas transformaram a indústria, permitindo que os fabricantes conseguissem validar cientificamente o impacto biomecânico e fisiológico dos seus produtos no corpo humano.

Atentos ao mercado e em busca de melhorias contínuas para o setor calçadista, o Comitê Brasileiro de Couro, Calçados e Artefatos de Couro (CB-11) consolidou-se como um importante pilar técnico para a indústria calçadista nacional. Vinculado a ABNT e gerenciado com o suporte do Instituto Brasileiro de Tecnologia do Couro, Calçado e Artefatos (IBTeC), o CB-11 elabora e coordena as Normas Brasileiras (NBRs) que são aplicadas às cadeias produtivas.

Uma das normas utilizada para a avaliação do nível do conforto dos calçados é a ABNT NBR 14835 que estabelece o método para a determinação da massa do calçado.

Esta norma determina o nível do conforto da massa do calçado pela numeração de acordo com o tipo de calçado: casual, infantil, com biqueira ou similar, coturno e bota de cano alto, nas versões masculino e feminino.

Através da comissão especializada (CB-11) houve atualmente uma revisão da norma ABNT NBR 14835, onde acrescentou-se uma nota salientando que esta norma não é aplicável a calçados especiais, como botas de bombeiros, botas de motociclistas, botas de cavalaria e similares.

O principal motivo para essa atualização, com a inserção da nota sobre calçados especiais, foi o aumento da produção e utilização destes tipos de calçados, consequentemente, as empresas também se preocuparam em avaliar o conforto nestes produtos, porém, para validação de uma norma ou da sua atualização, se faz necessário uma quantidade significativa de dados, para que possamos ter um banco de dados possíveis de serem analisados estatisticamente, para, por fim, sugerir os novos parâmetros de avaliação do conforto para esse tipo específico de calçado, o que, por enquanto, ainda está em fase de montagem desse banco de dados.

A massa de um calçado é uma variável importante para a locomoção humana, uma vez que ela influencia diretamente no custo energético, na cinemática do movimento e na possibilidade de lesões musculoesqueléticas. Ainda neste contexto, a massa que carregamos nos pés exige uma compensação muscular que pode otimizar ou comprometer a eficiência muscular, isso ocorre tanto em caminhadas diárias como para performance esportiva de alto rendimento.

Para os calçados especiais como as botas de bombeiros, de motociclistas, de cavalarias e afins, entende-se a necessidade de incrementos que visam à segurança frente à exposição às ameaças eminentes como fogo/calor excessivo (isolante térmico), quedas, perfurações e proteção contra agentes químicos.

Por estes fatores, a massa para os calçados citados será diferenciada de calçados ocasionais e de performance, pois constitui-se em uma importante barreira primária de proteção e isolamento dos membros inferiores em situações adversas.

Dentro do contexto de atualizações e melhorias lideradas pelo CB-11, a NBR 14836, que dita as normas da determinação dinâmica da distribuição da pressão plantar, também passou por uma revisão, através de reunião com empresas, entidades e laboratórios, onde foi sugerido que para os calçados infantis, a partir da numeração 29, utilizem os parâmetros e níveis de conforto utilizados para calçados adultos, nas duas situações avaliadas: região inferior do calcâneo e região inferior da cabeça dos metatarsos.

Esta sugestão ocorreu, visto que, através de um levantamento de dados, verificou-se que as pressões plantares de crianças a partir desta numeração apresentam valores muito mais similares às características dos adultos do que de crianças que calcem numerações menores.

Este teste é fundamental para verificar se há uma distribuição equilibrada das cargas plantares no interior do calçado. Picos de pressão plantar elevados ocorrem quando a força não é distribuída de maneira uniforme pela área da planta dos pés, de modo que se concentrem em áreas pequenas e especificas, podendo originar dor e calos.

Uma vez solicitada a revisão da norma e de conformidade com todos os interessados, os documentos técnicos ABNT são elaborados conforme as regras da ABNT Diretiva 2.

É realizada uma consulta nacional onde fica aberta para manifestos de apoio ou sugestões contrárias às

atualizações propostas. Esta consulta popular fica aberta por padrão, por trinta dias, podendo estender-se até

90 dias.

Um importante reforço na utilização das normas de conforto pelas empresas ocorreu através da sugestão do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), através da Portaria 672, para que as empresas de calçados de segurança obtenham, além do Certificado de Aprovação (CA), também um laudo de conforto destes calçados.

Ao longo do ano de 2026, as demais normativas de conforto têm previsão de atualização, tanto em questões textuais, quanto nas questões técnicas e de metodologias.

Cabe salientar a importância da participação das empresas e entidades de classe nas reuniões do Comitê Brasileiro de Couro, Calçados e Artefatos de Couro, já que essa convergência de informações e estudos envolvem todo o setor calçadista.


Os ensaios biomecânicos para avaliar o conforto dos calçados são classificados através

de seis normas:


A Norma Geral ABNT NBR 14834/2024 - Conforto do Calçado - Estabelece os métodos de ensaios e os requisitos para a determinação do índice de conforto dos calçados. Cada norma testada apresenta um nível de conforto classificado como Confortável, Normal e/ou Desconfortável, o somatório da pontuação de todas as normas equivale ao índice de conforto do calçado. Caso alguma norma apresente nível desconfortável, o índice é automaticamente considerado desconfortável.


ABNT NBR 14835/2021 - Determinação da Massa do Calçado - Através de uma balança digital devidamente calibrada, verifica-se a massa do calçado. São realizadas três medidas para cada pé, em cada numeração. É feita a média entre o calçado direito e esquerdo. Os parâmetros para a determinação dos níveis de conforto do calçado são determinados pelas numerações 35, 36 e 37 para o feminino, numerações 40, 41 e 42 para o masculino e o infantil é determinada conforme a grade utilizada pela empresa.


ABNT NBR 14836/2021 - Determinação Dinâmica da Distribuição de Pressão Plantar - Para mensurar a pressão plantar são utilizadas palmilhas sensorizadas que são acopladas na região interior do calçado. Desta forma, são determinados os picos de pressão plantar dinâmico para as regiões dos metatarsos e do calcanhar, definindo seus níveis de conforto.


ABNT NBR 14837/2017 - Determinação da Temperatura Interna do Calçado - Realizado através de um sensor de temperatura fixado diretamente no pé do modelo de calce. A determinação da variação da temperatura interna do calçado é realizada durante trinta minutos de caminhada em esteira instrumentalizada.



ABNT NBR 14838/2016 - Determinação do Índice de Amortecimento do Calçado - Avaliado através de plataformas de força, o ensaio consiste no modelo de calce caminhar descalço e com o calçado sobre as plataformas. O índice de amortecimento é determinado pela Taxa de Aceitação do Peso (TAP) calculada a partir da curva

F x T (Força por tempo). É feita a comparação entre estas duas condições, indicando o quanto o calçado absorve do impacto durante o caminhar.


ABNT NBR 14839/2025 - Determinação do Índice de Pronação do Calçado - Mensurado através de câmeras digitais, são realizadas marcações conhecidas na região posterior do calcanhar e na região do contraforte do calçado. Em seguida o modelo de calce caminha em esteira ergométrica nas condições descalço e calçado, desta forma é possível analisar o quanto o calçado está influenciando no ângulo de pronação (estabilidade). O cálculo do índice de pronação é feito a partir da comparação entre os ângulos máximos em ambas as condições (descalço e calçado).


ABNT NBR 14840/2024 - Determinação dos Níveis de Percepção do Calce - Após a caminhada de 30 minutos em esteira é realizado um questionário relacionado ao conforto do calçado ao modelo de calce. Também é realizada uma avaliação dos pés do modelo de calce com objetivo de observar a presença de marcas, pressões ou lesões.



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