ARTIGO CIENTÍFICO: INFLUÊNCIA DO MÉTODO DE SECAGEM SOBRE AS PROPRIEDADES MECÂNICAS DE PELES DE COELHO DA RAÇA NOVA ZELÂNDIA BRANCO CURTIDAS COM SAIS DE CROMO
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COSTA, Dezirrê Raiane¹; OLIVEIRA, Diogo Marques de¹; MONTEIRO,
Filipe Antônio¹; CANGIANELLI, Gabriela Hernandes1; BRONZI, Rafaela
Dorne1; NUNES, Vitória Rodrigues3; PAULA, Giovana de3; HASHIMOTO,
Mateus3; CAMARGO, Gabriela Turkiewicz3; SANTOS, Giulia Ferreira dos3,
FERREIRA, Ismael Berti3; VIEIRA, Luiza Pereira3 e SOUZA, Maria Luiza
Rodrigues de2.
1. Discente do Programa de Pós-Graduação em Zootecnia, Universidade
Estadual de Maringá (UEM), Maringá, Paraná, Brasil.
2. Docente do Departamento de Zootecnia, Universidade Estadual de Maringá
(UEM), Maringá, Paraná, Brasil.
3. Discente de graduação, Universidade Estadual de Maringá (UEM), Maringá,
Paraná, Brasil.
Resumo
O estudo avaliou o efeito do método de secagem sobre as propriedades físicas e mecânicas de peles de coelho da raça Nova Zelândia Branco curtidas com sais de cromo. Após o curtimento, as peles foram submetidas à secagem com fixação em tábuas ou sem fixação. O delineamento experimental foi inteiramente casualizado, em esquema fatorial 2 × 2, composto pelos métodos de secagem (secagem sem e com fixação da pele em tábua de madeira) e pelos sentidos de retirada dos corpos de prova (longitudinal e transversal). Foram avaliadas a espessura, a resistência à tração, a deformação, o alongamento, o rasgamento progressivo e a força máxima aplicada no ensaio do rasgo. A secagem sem fixação promoveu maior espessura, deformação e alongamento das peles (p = 0,0055; p = 0,0022; p = 0,0025, respectivamente). A resistência à tração (p = 0,2008), o rasgamento progressivo (p = 0,7270) e a força máxima no ensaio de rasgamento progressivo (p = 0,0991) não foram influenciados pelo método de secagem. O sentido de retirada dos corpos de prova influenciou apenas a força máxima no ensaio de rasgamento progressivo (p = 0,0140), com maiores valores no sentido transversal. Não houve interação entre o método de secagem e o sentido de retirada para nenhuma das variáveis avaliadas (p > 0,05). A secagem sem fixação favoreceu maior capacidade de distensão das peles, enquanto a secagem com fixação em tábuas resultou em peles mais finas, permitindo a escolha do método de secagem de acordo com as características desejadas para a aplicação final do material.
Palavras-chave: ensaios mecânicos; cunicultura; rasgamento progressivo; agente curtente; tração e alongamento.
Abstract
The study evaluated the effect of the drying method on the physical and mechanical properties of White New Zealand breed rabbit skins tanned with chromium salts. After tanning, the skins were subjected to drying either with or without stretching on boards.
The experimental design was completely randomized, in a 2 × 2 factorial scheme, consisting of the drying methods (drying without and with stretching of the skin on a wooden board) and the directions in which the samples were taken (longitudinal and transversal). Thickness, tensile strength, deformation, elongation, progressive tearing, and maximum force applied in the tearing test were evaluated. Drying without stretching promoted greater thickness, deformation, and elongation of the skin (p = 0.0055; p = 0.0022; p = 0.0025, respectively). Tensile strength (p = 0.2008), progressive tearing (p = 0.7270), and maximum force in the progressive tearing test (p = 0.0991) were not influenced by the drying method. The direction in which the samples were taken only affected the maximum force in the progressive tearing test (p = 0.0140), with higher values in the transverse direction. There was no interaction between the drying method and the sample direction for any of the variables analyzed (p > 0.05). Drying without fixing boosted the skins’ stretching capacity, while drying on boards resulted in thinner skins, allowing the choice of drying method based on the desired traits for the material’s final use.
Keywords: mechanical tests; rabbit breeding; progressive tearing; tanning agent; traction and stretching
Introdução
As peles de coelho curtidas apresentam potencial para aplicação nos setores artesanal e industrial (Franco et al., 2012) devido à leveza, maciez, flexibilidade e resistência mecânica. Essas características favorecem seu emprego na confecção de vestuário, acessórios e revestimentos, desde que o processo de curtimento preserve a estabilidade estrutural e as propriedades físicas do material (Hassan et al., 2023).
As propriedades físicas e mecânicas da pele dependem das etapas de processamento, principalmente do curtimento, que determina a estabilização da matriz colagênica (Souza et al., 2016; Zhang et al., 2018). Devido à menor espessura e à elevada delicadeza das peles de coelho, variações durante o curtimento e a secagem influenciam a resistência mecânica, a elasticidade e a uniformidade superficial do couro obtido (Hoch et al., 2013).
Entre as etapas do processamento, a secagem exerce papel determinante na estabilidade dimensional e na organização da estrutura fibrosa da pele. O método empregado interfere na disposição das fibras colagênicas, no grau de retração e na manutenção das dimensões da pele (Kelly et al., 2019). A secagem pode ser realizada com a pele aberta e fixada em tábuas ou sem fixação. A fixação reduz deformações, favorece maior uniformidade estrutural e aumenta a área da pele, enquanto a secagem sem fixação resulta em retrações irregulares e alterações nas propriedades físicas do material (Villarroel et al., 2004).
As alterações promovidas durante a secagem refletem nas propriedades mecânicas e na organização da estrutura colagênica da pele, influenciando a resistência à tração, o alongamento, a deformação e a qualidade do produto final (Sizeland et al., 2015). Embora a influência da secagem tenha sido demonstrada em diferentes tipos de peles, os efeitos da fixação durante essa etapa ainda permanecem pouco esclarecidos para peles de coelho. Dessa forma, o objetivo deste estudo foi avaliar o efeito da secagem com e sem fixação em tábuas sobre as propriedades mecânicas, físicas e estruturais de peles de coelho curtidas ao cromo.
Materiais e Métodos
O experimento foi conduzido no Laboratório de Curtimento da Universidade Estadual de Maringá, localizado na Fazenda Experimental de Iguatemi, em Maringá, Paraná, Brasil. Foram utilizadas 20 peles de coelhos Nova Zelândia (Oryctolagus cuniculus), provenientes de abate comercial e mantidas congeladas até o processamento. Para o processamento, as peles foram descongeladas em água à temperatura ambiente. Em seguida, foram removidos a cauda, a genitália e os tecidos aderidos à face interna. As peles foram abertas pela linha mediana ventral, no sentido longitudinal, para realização do descarne. Após essa etapa, foram pesadas individualmente para o cálculo da quantidade de produtos utilizada durante o curtimento.
Processamento e secagem das peles
Foram avaliados dois métodos de secagem após o curtimento (Imagem 1): T1, peles abertas e fixadas em tábuas de madeira durante a secagem; e T2, peles abertas e secas sem fixação em tábuas. Em ambos os tratamentos, as peles foram curtidas com 8% de sais de cromo Kromium PP®, com base no peso das peles.

Imagem 1.
Representação esquemática dos métodos
de secagem avaliados.
(A) Pele aberta e fixada em tábua de madeira durante a secagem.
(B) Pele submetida à secagem sem fixação
O processamento foi realizado conforme a metodologia descrita por Hoch et al. (2009), com adaptações. As peles foram submetidas às etapas de remolho, descarne, desengraxe, píquel, curtimento, basificação, neutralização, recurtimento, engraxe, secagem e acabamento (Figura 1). Após a secagem, os corpos de prova foram retirados nos sentidos longitudinal e transversal em relação ao eixo corporal do animal. Algumas peles também foram tingidas para avaliação da qualidade visual e demonstração do potencial de aplicação do material (Imagem 2).

Imagem 2. Peles de coelhos curtidas
com sais de cromo, mostrando
as possibilidades de cores para o
tingimento

Retirada dos corpos de prova e ensaios mecânicos
O experimento foi conduzido em delineamento inteiramente casualizado, em esquema fatorial 2 × 2, composto por dois métodos de secagem (com e sem fixação em tábuas) e dois sentidos de retirada dos corpos de prova (longitudinal e transversal). Os corpos de prova foram retirados da região dorsal das peles, nos sentidos longitudinal e transversal em relação ao eixo corporal do animal (Imagem 3), para avaliar o efeito dos tratamentos sobre as propriedades mecânicas. A retirada foi realizada com balancim padronizado, conforme a ABNT NBR 2418:2015. A espessura foi determinada conforme a ABNT NBR ISO 2580 (2016).

Imagem 3:
Pele curtida de coelho indicando a
disposição dos corpos de prova retirados nos sentidos longitudinal e transversal para avaliação das propriedades mecânicas, conforme a ABNT NBR 2418:2015.
Os ensaios de resistência à tração e alongamento foram realizados conforme a ABNT NBR ISO 3376:2014, enquanto o ensaio de resistência ao rasgamento progressivo seguiu a ABNT NBR ISO 3377-2:2014. A espessura dos corpos de prova foi mensurada em dois pontos, sendo utilizada a média das medidas para o cálculo da resistência à tração (N/mm²) e da resistência ao rasgamento progressivo (N/mm). Também foram obtidos os valores de força máxima (N), deformação (mm) e alongamento (%).
Análises de microscopia eletrônica de varredura (MEV)
Para a analisar a pele através da microscopia eletrônica de varredura, foram coletadas cinco amostras da região central das peles, no sentido longitudinal, com o objetivo de observar os a espessura dos pelos e sua distribuição na pele.
As amostras foram inicialmente submetidas à secagem em estufa a 50ºC por 48 horas, para a remoção do excesso de umidade. Os cortes das amostras foram fixados com fita dupla face de carbono sobre stubs específicos de alumínio e metalizados com camada de ouro de cerca de 10 nm (Sputter Coater, FDU 010, Bal-Tec, Balzers, Liechtenstein). A análise foi realizada no MEV SHIMADZU-SS550, a 15 kV, com captura digital das imagens em aumentos entre 500x a 2000x, disponibilizado pelo Complexo de Apoio à Pesquisa (COMCAP) da Universidade Estadual de Maringá (UEM).
Análise estatística
O delineamento experimental foi inteiramente casualizado, em esquema fatorial 2 × 2, composto por dois métodos de secagem (peles fixadas em tábuas e peles secas sem fixação) e dois sentidos de retirada dos corpos de prova (longitudinal e transversal). As variáveis mecânicas foram submetidas à análise de variância, considerando os efeitos dos métodos de secagem, dos sentidos de corte e da interação entre esses fatores. O modelo estatístico adotado foi: Yijk = μ + Ti + Sj + (TS)ij + £ijk, em que Yijk corresponde ao valor observado, μ à média geral, Ti ao efeito dos métodos de secagem, Sj ao efeito dos sentidos de retirada dos corpos de prova, (TS)ij à interação entre os fatores e £jk ao erro experimental. Quando observadas diferenças significativas, as médias foram comparadas pelo teste t de Student a 5% de probabilidade. Também foi realizada análise de correlação de Pearson entre as variáveis mecânicas avaliadas. As análises estatísticas foram conduzidas utilizando os programas SAS® versão 9.4, R versão 4.5.1 e RStudio® versão 2025.09.0+387.
Uso de ferramentas de inteligência artificial
Ferramentas de inteligência artificial foram utilizadas durante a elaboração do manuscrito. A plataforma Consensus foi empregada na busca de referências científicas, enquanto o ChatGPT (OpenAI, San Francisco, CA, EUA) foi utilizado para revisão gramatical e aprimoramento da redação e o Google Gemini foi utilizado na elaboração de figuras esquemáticas. O conteúdo final foi revisado e validado pelos autores.
Resultados e Discussão
Os valores médios de espessura, resistência ao rasgamento progressivo e força máxima estão apresentados na Figura 2. A espessura foi influenciada pela condição de secagem (p = 0,0055), sendo maior nas peles secas sem fixação em tábuas (T2) em relação às fixadas (T1). O sentido de retirada dos corpos de prova (p = 0,1821) e a interação entre os fatores (p = 0,8081) não influenciaram essa variável. A resistência ao rasgamento progressivo não foi afetada pela condição de secagem (p = 0,7270), pelo sentido de retirada (p = 0,1557) ou pela interação entre os fatores (p = 0,3553). Para a força máxima, não houve efeito da condição de secagem (p = 0,0991) nem da interação entre os fatores (p = 0,1829). Entretanto, houve efeito do sentido de retirada (p = 0,0140), com maiores valores no sentido transversal em relação ao longitudinal.

Figura 2. Espessura (mm), rasgamento progressivo (N/mm) e força máxima (N) de peles curtidas de coelho em função do método de secagem e do sentido de retirada dos corpos de prova. T1 = peles abertas e fixadas em tábuas durante a secagem; T2 = peles abertas e secas sem fixação; L = sentido longitudinal; T = sentido transversal. Médias seguidas por letras distintas diferem pelo teste t de Student (p<0,05).
O aumento da espessura nas peles secas sem fixação pode estar relacionado à maior retração das fibras colagênicas durante a perda de água, resultando em uma derme mais compacta. Nas peles fixadas em tábuas, a restrição da retração favoreceu maior uniformidade da estrutura dérmica. Apesar da diferença na espessura, não foram observados efeitos sobre a resistência ao rasgamento progressivo ou a força máxima. O efeito do sentido de retirada apenas sobre a força máxima indica a influência da orientação predominante das fibras colagênicas na distribuição das tensões aplicadas à pele.
Os valores médios de resistência à tração, deformação e alongamento estão apresentados na Figura 3. O método de secagem influenciou a deformação (p = 0,0022) e o alongamento (p = 0,0025), com maiores valores nas peles secas sem fixação (T2) em relação às fixadas em tábuas (T1). A resistência à tração não foi influenciada pelo método de secagem (p = 0,2008). O sentido de retirada dos corpos de prova não afetou a resistência à tração (p = 0,8372), a deformação (p = 0,1416) ou o alongamento (p = 0,1499). Também não houve interação entre o método de secagem e o sentido de retirada para resistência à tração (p = 0,7933), deformação (p = 0,4630) e alongamento (p = 0,4675).

Figura 3. Resistência à tração (N/mm²), deformação (mm) e alongamento (%) de peles curtidas de coelho em função do método de secagem e do sentido de retirada dos corpos de prova. T1 = peles abertas e fixadas em tábuas durante a secagem; T2 = peles abertas e secas sem fixação; L = sentido longitudinal; T = sentido transversal. Médias seguidas por letras distintas diferem pelo teste t de Student (p<0,05).
A secagem sem fixação promoveu maior deformação e alongamento das peles. A retração livre durante a secagem permite maior reorganização da rede de fibras colagênicas, preservando sua capacidade de deformação e aumentando a distensão do material (Tian et al., 2015). Em contrapartida, a resistência à tração não foi influenciada pelo método de secagem, demonstrando que o aumento da elasticidade ocorreu sem alteração da resistência mecânica. Liu et al. (2010) observaram maior resistência mecânica e menor alongamento em couros submetidos ao estiramento biaxial durante a secagem. Da mesma forma, Huang et al. (2018) relataram aumento da resistência à tração em materiais secos sob tensão, enquanto a retração livre favoreceu maior elasticidade.
A matriz de correlação (Figura 4) apresentou associação negativa entre espessura e resistência à tração (r = -0,644; p < 0,05), de modo que peles mais espessas apresentaram menor resistência à tração. Esse comportamento pode estar relacionado à distribuição e ao arranjo das fibras colagênicas, uma vez que o aumento da espessura nem sempre reflete maior densidade ou organização fibrilar. Dessa forma, a arquitetura da derme exerce maior influência sobre a resistência mecânica do que a espessura isoladamente. Oliveira et al. (2021), avaliando couro de peixes, relataram maior relação entre a organização histológica da derme e a resistência mecânica do que com a própria espessura do couro. Em diferentes espécies de peixes curtidas, Franco et al.
(2013) também verificaram ausência de relação proporcional entre espessura e resistência à tração. Da mesma forma, Costa et al. (2026), avaliando peles curtidas de coelho submetidas a diferentes agentes curtentes, observaram que a espessura isoladamente não explicou as diferenças nas propriedades mecânicas, reforçando a maior contribuição da organização das fibras colagênicas para a resistência do material.

Figura 4. Correlações de Pearson entre espessura, força máxima no rasgamento progressivo, resistência à tração, deformação e alongamento de peles curtidas de coelho. Correlações significativas são indicadas por *p < 0,05 e ***p < 0,001
Os maiores valores de deformação e alongamento ocorreram nas peles curtidas de coelhos submetidas à secagem sem fixação (T2). A maior deformação e o maior alongamento podem ser explicados pela retração livre durante a perda de água, que favorece maior mobilidade das fibras colagênicas e maior capacidade de distensão do material. Embora as correlações entre espessura e deformação (r = 0,374; p > 0,05) e entre espessura e alongamento (r = 0,448; p > 0,05) não tenham sido significativas, ambas apresentaram associação positiva com essas propriedades. Huang et al. (2018) também observaram, em couro, maior deformação e elasticidade em materiais submetidos a menores níveis de tensão durante a secagem, atribuindo esse comportamento à menor orientação das fibras colagênicas e à maior mobilidade estrutural da derme.
A correlação negativa entre espessura e resistência à tração (r = -0,644; p < 0,05) mostrou que peles curtidas mais espessas não apresentaram, necessariamente, maior resistência mecânica. Esse comportamento pode estar relacionado à organização das fibras colagênicas, uma vez que o aumento da espessura da derme nem sempre resulta em maior resistência à tração. Também ocorreu associação negativa entre resistência à tração e alongamento (r = -0,614; p < 0,05), demonstrando que peles com maior capacidade de alongamento apresentaram menor resistência à tração. A forte correlação entre deformação e alongamento (r = 1,000; p < 0,001) confirma a relação diretamente proporcional entre essas variáveis durante os ensaios de tração. Jacinto et al. (2005) também observaram, em couro de caprinos e ovinos, resposta integrada entre resistência mecânica, deformação e elasticidade em função das alterações promovidas durante o processamento.
O rasgamento progressivo não diferiu entre os métodos de secagem, demonstrando que a aplicação de tensão durante a secagem não alterou a resistência da pele à propagação do rasgo. Franco et al. (2012), em couro de coelho, e Souza et al. (2006), em couro de carpa-prateada, também observaram estabilidade da resistência ao rasgamento progressivo, mesmo diante de alterações em outras propriedades mecânicas.
O sentido de retirada dos corpos de prova influenciou apenas a força máxima no ensaio de rasgamento progressivo, com maiores valores no sentido transversal. As demais propriedades mecânicas não diferiram entre os sentidos longitudinal e transversal. Em peles de coelho, esse comportamento pode estar relacionado às características estruturais da derme, que apresentam menor orientação preferencial das fibras colagênicas quando comparadas às de outras espécies. Basil-Jones et al. (2011) observaram, em couros bovinos e ovinos, maior resistência mecânica no sentido longitudinal, atribuída à orientação preferencial das fibras colagênicas na derme.
O processo de curtimento também permite a obtenção de peles com diferentes padrões de coloração (Imagem 2), ampliando as possibilidades de aplicação desse material. A etapa de acabamento confere versatilidade ao produto, permitindo sua utilização na confecção de vestuário, acessórios, calçados e artigos de decoração, além de agregar valor às peles curtidas e favorecer o aproveitamento desse subproduto. A combinação entre propriedades mecânicas e possibilidades de acabamento amplia o potencial de utilização das peles curtidas de coelho, favorecendo sua inserção em diferentes segmentos da indústria coureira.
Torna-se necessário mencionar alguns fatores importantes para peleteria, nos quais pode valorizar mais a pele para comercialização. Estes são densidade de pelos, integridade deles nas peles, falhas na pelagem, presença da muda (troca de pelos, que ocorre em determinados momentos da vida do coelho) ou mesmo queda elevada de pelos após o término do curtimento que interfere na classificação das peles e na sua comercialização.
Dentro desse quesito, a pelagem de coelho apresenta uma classificação quanto ao comprimento dos pelos, a espessura e quantidade destes pelos distribuídos na pele. Sendo assim, são Pelos-Guia (ou Pelos de Guarda) que são os pelos mais longos, grossos e resistentes da pelagem. Formam a camada externa, conferindo proteção mecânica contra abrasão, umidade e agentes ambientais. Também são responsáveis pela coloração e pelo brilho característicos da pele.
O segundo tipo é o Pelo intermediário que apresenta comprimento e espessura intermediários entre os pelos-guia e a borra. Auxiliam na sustentação da pelagem, proporcionando maior cobertura e contribuindo para a transição entre a camada externa e a interna.

Imagem 4. Classificação dos pelos nas peles de coelhos e a Microscopia eletrônica de varredura mostrando os pelos na derme.
O terceiro é o Borra (subpelo ou lanugem) que é constituído por pelos finos, curtos, macios e muito numerosos, localizados na camada mais interna da pelagem. Sua principal função é o isolamento térmico, retendo uma camada de ar próxima à pele e ajudando a manter a temperatura corporal do animal. A Borra também confere maciez e volume à pele.
Essa classificação é amplamente utilizada na indústria de peles e no estudo da estrutura da pelagem de coelhos, sendo importante para avaliar a qualidade da pele destinada ao curtimento e às aplicações industriais.
Conclusão
O método de secagem influenciou a espessura, a deformação e o alongamento das peles curtidas de coelho, sem alterar a resistência à tração, a força máxima e o rasgamento progressivo. A secagem sem fixação favoreceu maior capacidade de distensão, enquanto a fixação em tábuas produziu peles mais finas. Dessa forma, ambos os métodos de secagem podem ser empregados, sendo a escolha condicionada às características requeridas para a utilização do material.
Agradecimentos
Os autores agradecem ao Setor de Cunicultura da UEM localizado na Fazenda Experimental de Iguatemi (FEI), pela doação das peles e à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES, Código de Financiamento 001) pela concessão de bolsa à primeira autora e ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), processo nº 403079/2023-3, pelo apoio financeiro ao desenvolvimento deste estudo.
Referências
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