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Artigo Científico: IMPACTO DO USO DE CALÇADO DE SEGURANÇA DESCONFORTÁVEL NA REAÇÃO DE DOR E NO DESEMPENHO COGNITIVO

há 10 minutos
12 min de leitura

WILBORN, Juliana1

1. Instituto Brasileiro de Tecnologia do Couro, Calçado e Artefatos (IBTeC)


Resumo

Os calçados de segurança, obrigatórios em determinados ambientes de trabalho por conferir proteção ao trabalhador, podem gerar impactos negativos quando considerados desconfortáveis. Este estudo teve como objetivo principal verificar se os calçados de segurança desconfortáveis têm impacto na reação de dor e no desempenho cognitivo de trabalhadores e foi realizado com cinco sujeitos do gênero masculino, faixa etária (21 ± 3) anos, recrutados pelo processo de amostragem não probabilística do tipo intencional. Após o preenchimento do formulário de identificação e realizada a explicação sobre a caminhada em esteira com dois tipos de calçados de segurança, em dias alternados, o sujeito caminha por no máximo 30 minutos. Sendo indagado sobre o nível de dor e posteriormente realizado um teste de atenção continuada com o auxílio de um tablet. Na análise dos dados foi encontrada, embora pequena, uma possível relação causal entre os eventos de dor, distração e leve redução da performance cognitiva.


Palavras-chave: calçado de segurança, conforto de calçados, reação de dor, desempenho cognitivo, produtividade.


Abstract

Safety footwear, although mandatory in specific occupational settings due to its protective function, may exert adverse effects when perceived as uncomfortable. The primary objective of this study was to investigate whether the use of uncomfortable safety footwear influences pain perception and cognitive performance in workers. The study was conducted with five male participants (21 ± 3 years), recruited through a non-probabilistic, purposive sampling strategy. Following the completion of an identification form and a detailed explanation regarding treadmill walking with two different models of safety footwear on alternating days, each participant walked for a maximum duration of 30 minutes. During the task, participants reported their perceived pain levels and subsequently completed a sustained attention test administered via tablet. Data analysis suggested a potential, albeit modest, causal relationship between pain, distraction, and a slight decline in cognitive performance.


Keywords: safety footwear, footwear comfort, pain response, cognitive performance, productivity


Introdução

A utilização de Equipamentos de Proteção Individual (EPI), no contexto da segurança do trabalho é obrigatória em ambientes com riscos potenciais e o calçado de segurança evidencia-se como um componente fundamental na prevenção de acidentes.

De acordo com os dados do Ministério do Trabalho e Empregos (MTE), o Brasil contabilizou 380.376 acidentes de trabalho no primeiro semestre de 2025. Em relação ao mesmo período de 2024 houve um acréscimo de quase 9% dos acidentes. Segundo estimativas do MTE os acidentes de trabalho podem gerar uma perda de até 4% do PIB nacional ao ano.

Embora o uso prolongado do calçado de segurança seja essencial para a proteção do trabalhador, muitos profissionais relatam desconforto significativo, especialmente em atividades que exigem longos períodos na posição em pé ou de deslocamentos. Corroborando ainda, de acordo com Ochsman et. al, 2016 estes calçados geralmente são utilizados por aproximadamente oito horas por dia, cinco dias por semana o que pode trazer riscos de lesões.

Alguns estudos apontam que o desconforto relacionado ao calçado ocupacional ou de segurança inclui problemas referentes ao calor excessivo, solados pouco flexíveis e o excesso na massa (Copper et. al 2021). De acordo com Arceri et. al (2024) certas características do calçado, como a massa, o ajuste e o design inadequado, podem ser fatores associados ao desconforto e a padrões de marcha adversos, levando potencialmente ao aumento de problemas nos pés entre os trabalhadores.

Esse desconforto pode desencadear reações de dor musculoesquelética e influenciar funções cognitivas importantes, como a atenção e a tomada de decisão, impactando na segurança e no desempenho das atividades laborais.

No intuito de promover a segurança e o bem-estar dos trabalhadores é fundamental compreender qual o impacto que o desconforto físico gerado pelos EPIs, neste caso - o calçado de segurança -, ocasiona no desempenho das tarefas cognitivas.

Diante disso, o objetivo deste estudo é verificar se o uso de calçado de segurança desconfortável pode gerar impacto na reação de dor e no desempenho cognitivo dos sujeitos. A hipótese central é que estímulos dolorosos contínuos sirvam como um distrator interno, competindo com a atenção em algumas tarefas, o que pode gerar acidentes, diminuição da produtividade, entre outros.

Referencial teórico

Norma ABNT NBR 14834 - Conforto do Calçado e componentes

1- Calçado Confortável e Calçado Desconfortável

O calçado de segurança utilizado pelo trabalhador deve proteger os pés contra riscos mecânicos, químicos e elétricos no ambiente de trabalho. Entretanto, essa proteção isolada não é suficiente, uma vez que o conforto é um elemento crucial, especialmente em jornadas longas.

Neste contexto a norma ABNT NBR 14834 estabelece os métodos e os requisitos para a determinação do índice de conforto dos calçados e a contribuição dos componentes para o conforto em calçados. Essa norma visa a garantir que o usuário não apenas esteja protegido, mas também experimente conforto durante o uso continuo. A norma ainda determina os parâmetros para avaliar o conforto dos calçados, considerando aspectos biomecânicos, fisiológicos e ergonômicos.

Esses critérios são avaliados por ensaios biomecânicos e, ainda, a percepção subjetiva dos usuários durante a utilização real dos calçados. Os ensaios utilizados são:

1- Nível de conforto da massa do calçado - determinar a massa do calçado conforme a ABNT NBR 14835;

2- Nível de conforto da distribuição de pressão plantar - determinar os picos de pressão plantar durante a marcha de acordo com a ABNT NBR 14836;

3- Nível de conforto da temperatura interna do calçado - determinar a temperatura interna do calçado conforme a ABNT NBR 14837;

4- Nível de conforto do índice de amortecimento do calçado - determinar o índice de amortecimento do calçado durante a marcha conforme a ABNT NBR 14838;

5- Nível de conforto do índice de pronação do calçado - determinar o índice de pronação do calçado durante a marcha conforme a ABNT NBR 14839;

6- Nível de conforto da percepção do calce - determinar os níveis de percepção do calce, marcas e lesões conforme a ABNT NBR 14840.

Segundo Barros et al. (2020), o cumprimento dos requisitos propostos na norma ABNT NBR 14834 melhora significativamente a experiência do trabalhador, reduzindo a fadiga e o risco de lesões por esforços repetitivos, além de aumentar a aderência ao uso dos EPIs. Reforçando ainda, Silva et al. (2021) mostram que o uso de calçados de segurança confortáveis está relacionado à maior produtividade, menor índice de afastamentos e maior satisfação do trabalhador.

Estes ensaios estão diretamente relacionados aos seguintes atributos:

1- Massa do calçado - quanto maior a leveza do calçado, menor será o gasto energético e a fadiga muscular;

2- Pressão Plantar - identifica os picos de pressão plantar, durante o movimento, e se as pressões forem homogêneas e de baixa magnitude, mais confortável será o calçado;

3- Microclima/temperatura interna - permite avaliação dos componentes internos do calçado quanto a respirabilidade dos pés (ventilação adequada) e se os mesmos apresentam eficiência do microclima, mantêm os pés secos e levemente aquecidos;

4- Amortecimento do calçado - sistema eficiente de amortecimento reduz impactos gerados durante o caminhar preservando as articulações e reduzindo lesões;

5- Pronação - identifica a estabilidade do calçado (inibe o risco de quedas e possíveis torções);

6- Conforto (percepção do calce) - identifica a adaptação anatômica dos pés e o bem-estar com o calçado, bom suporte, flexibilidade, enfim, uma conjunção dos requisitos acima.

Os calçados de segurança são considerados desconfortáveis quando negligenciam os critérios de conforto:

- rigidez excessiva, dificultando a mobilidade;

- materiais impermeáveis, porém não respiráveis, causando suor excessivo;

- massa elevada, contribuindo para o cansaço;

- fôrma inadequada, que causa atrito e formação de calos ou bolhas.

O não cumprimento da NBR 14834 tem implicações diretas na saúde ocupacional. O desconforto contínuo leva a alterações biomecânicas, aumento da fadiga e risco de lesões.


2 - Desconforto, Tempo de Reação e Perda de Foco no ambiente de trabalho

Como foi abordado anteriormente, uso de calçados de segurança é obrigatório em diversos contextos industriais, visando a proteção contra agentes físicos e acidentes. No entanto, quando esses calçados não oferecem um bom calce, são mal projetados ou fabricados com materiais inadequados, como por exemplo rígidos, e não oferecem um bom microclima, geram desconforto significativo para o trabalhador. Esse desconforto prolongado tem sido cada vez mais estudado como um fator de risco ergonômico que compromete tanto o bem-estar físico quanto o desempenho cognitivo (King, 2002).

Do ponto de vista neuropsicológico, o desconforto físico é processado como um estímulo nociceptivo leve, mas contínuo, que ativa receptores periféricos e envia sinais ao sistema nervoso central. Embora não atinja o limiar de dor aguda, esse desconforto age como algo que causa distração, demandando atenção constante e involuntária do indivíduo (Wiech et al., 2008). Como resultado, os recursos cognitivos que deveriam estar direcionados às tarefas operacionais acabam sendo parcialmente desviados para a sensação corporal incômoda.

Eccleston e Crombez (1999) enfatizam que a dor exerce uma função interruptiva sobre a atenção de modo que, quanto mais saliente for o estímulo doloroso, maior será a dificuldade de manter a concentração em atividades externas. Quando relacionado ao contexto laboral, pode significar que o trabalhador que sente dor nos pés por causa do calçado desconfortável terá maior propensão à distração e menor vigilância, especialmente em tarefas repetitivas ou monótonas.

Sendo assim, essa perda de foco pode contribuir diretamente para o aumento do tempo de reação. Tiemann et al. (2015) demonstram que estímulos dolorosos, mesmo leves, retardam a resposta motora e cognitiva a eventos externos, pois competem com o processamento sensorial e executivo do cérebro. Neste contexto, trabalhadores com dor ou desconforto nos pés podem responder mais lentamente a alarmes sonoros, comandos de supervisores ou ainda obstáculos físicos no ambiente.

Além disso, o desconforto persistente induz à fadiga cognitiva, que pode afetar as funções como memória de trabalho, tomada de decisão e flexibilidade mental. Isso pode levar a erros simples - como esquecer etapas de procedimentos, apertar botões incorretos ou interpretar sinais de forma imprecisa - que comprometem a segurança operacional, especialmente em ambientes de risco (Seminowicz & Davis, 2007).


Metodologia

Participaram deste estudo cinco sujeitos do gênero masculino que foram recrutados pelo processo de amostragem não probabilística do tipo intencional. Os participantes do estudo tinham idade de (21 ± 3) anos; massa corporal (85 ± 24) kg e altura (181± 7) cm. Foram utilizados dois calçados de segurança, de numeração 42, ambos previamente testados e avaliados de acordo com a Norma Brasileira ABNT NBR 14834 dentre os quais um foi certificado como confortável e o outro como desconfortável. Os sujeitos não tinham conhecimento sobre o índice de conforto dos calçados, no entanto foram orientados que poderiam interromper o teste a qualquer tempo, caso desconforto ou dor.

Foram excluídos os indivíduos que apresentavam histórico de lesões musculoesqueléticas e/ou cirurgias nos últimos seis meses, que não tinham experiência prévia com caminhada em esteira ergométrica e que calçassem numeração diferente de 42.

As coletas foram realizadas no Laboratório de Biomecânica do Instituto Brasileiro de Tecnologia do Couro, Calçado e Artefatos (IBTeC), em dias alternados, sendo coletados primeiramente os dados com o calçado confortável e no dia seguinte com o calçado desconfortável.

Na situação com o calçado confortável o sujeito caminhou durante um período de 30 minutos na esteira ergométrica, a uma velocidade de 5km/h. Durante a caminhada o participante foi submetido a testes de atenção continuada, disponível online realizado através de um tablet, com duração de dois minutos (no início e no final do calce). O sujeito também foi questionado sobre a dor/desconforto nos pés, cuja resposta deveria ser de acordo com a Escala Visual Analógica (EVA), ferramenta utilizada para medir a intensidade da dor, na qual a pontuação 0 representa sem dor e 10 dor máxima, conforme Figura 1.


Figura 1. Escala analógica visual - EVA

Fonte: Ciena et al. 2008


Seguiu-se a mesma metodologia utilizando-se o calçado desconfortável, no segundo dia. Em ambos os calçados os sujeitos foram orientados que poderiam interromper a caminhada a qualquer momento, de acordo com a sua percepção de desconforto/dor.


Resultados e Discussão

Para a apresentação dos resultados foi utilizada a estatística descritiva.

A intensidade da dor relatada durante a caminhada na esteira ergométrica, em ambas as situações (calçado confortável e calçado desconfortável), está representada na figura 2, onde observa-se que para o calçado confortável não há referência de dor (0 e 1), diferente da pontuação do calçado desconfortável que apresentou níveis elevados de dor (entre 6 a 10).

A média de permanência na esteira com o calçado desconfortável foi em torno de (13±2) minutos para 3 (três) sujeitos. Enquanto os demais 2 (dois) sujeitos completaram os 30 minutos, conforme estabelecido no protocolo, porém 1 (um) deles ficou com marcas bem significativas (avermelhadas) na região do calcanhar e o outro sujeito com formação de bolhas no calcanhar.

Diante desses dados, percebe-se que a construção do calçado é um fator determinante para o nível de dor bem como o surgimento de lesões nos pés. Isso indica que calçados desconfortáveis geram alta sobrecarga nos pés, possivelmente comprometendo não só o bem-estar físico, mas também a performance em atividades.


Figura 2. Distribuição dos sujeitos de acordo com a escala de dor (EVA)


A Figura 3 refere-se à atenção sustentada usando os dois tipos de calçado. Notou-se que, embora os valores continuassem altos, houve um declínio no desempenho da maioria dos sujeitos (94 a 98%), com redução de 2 a 3 pontos percentuais em média.

Ainda que as reduções do índice de atenção contínua tenham-se mostradas pequenas, podem indicar um efeito cognitivo do esforço físico, o que reforça a hipótese de que a dor ou o desconforto desviam a atenção da tarefa principal.


Figura 3. Distribuição dos sujeitos de acordo com o teste de atenção continuada


Ao se correlacionar os dados de dor e da atenção continuada observa-se que quanto maior a dor relatada com o calçado desconfortável, menor tende a ser o desempenho no teste de atenção. Este achado corrobora com Tiemann et al. (2015) quando afirmam que estímulos dolorosos, mesmo leves, retardam a resposta motora e cognitiva a eventos externos.

Como a variação na atenção não é tão extrema quanto na dor, pode-se pensar que o desconforto não incapacita totalmente a atenção embora provoque pequenas quedas consistentes. Essas quedas, embora pequenas, podem ser relevantes em tarefas que são mais minuciosas e/ou de longa duração. Pode haver uma relação causal conforme se observa na figura 4, onde a dor pode causar distração e a partir disso uma leve redução da performance cognitiva, o que pode gerar redução da produtividade e aumento na possibilidade de acidentes de trabalho.



Figura 4. Processo da relação causal

Fonte: Elaborado pelo autor (2025)


Portanto, o calçado de segurança, quando inadequado/desconfortável, deixa de ser apenas um problema biomecânico e passa a representar também uma ameaça à atenção, ao tempo de resposta e à tomada de decisão do trabalhador, elementos críticos para a prevenção de acidentes e a manutenção do desempenho no ambiente laboral.

Em contraste com os demais participantes do estudo, o sujeito 2 manteve o mesmo nível de atenção tanto no teste com o calçado confortável quanto com o desconfortável, o que pode estar relacionado a magnitude da dor em comparação aos demais participantes. Isto pode ter relação com os achados de Jones et. al (2023) quando salienta que a flexibilidade para alternar a atenção entre o desconforto e a tarefa - chamada maleabilidade atencional - é um fator protetor contra a interferência da dor no desempenho cognitivo. Sendo assim, indivíduos com maior maleabilidade conseguem manter melhor rendimento mesmo sob desconforto, enquanto aqueles com dificuldade de “desengajar” a atenção da dor apresentam maior lentidão e perda de foco.


Considerações Finais

Embora o tema do presente estudo seja consideravelmente relevante, ele foi realizado com uma amostra relativamente pequena, o que pode comprometer a generalização dos resultados. No entanto, observa-se uma tendência de que a dor esteja relacionada com a performance humana e estes resultados poderiam ser mais significativos se a utilização do calçado fosse por um período de tempo maior, por exemplo 8h/dia como relacionada a jornada de trabalho. Outra variável importante é a questão da faixa etária dos sujeitos, que são jovens, lidam bem com tecnologia e por ter habilidades com jogos virtuais podem ter maior facilidade em manter a atenção, mesmo por um período pequeno (2 minutos) como foi o caso neste estudo.

Para projetos futuros sugere-se que as coletas dos dados sejam realizadas com um grupo maior de sujeitos, de maneira que seja representativo e realizado em diferentes faixas etárias.

Referências

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