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Eco-friendly: um conceito em expansão


Crédito da foto: Freepik

A responsabilidade socioambiental é um caminho sem volta, mas com retornos perenes


Luís Vieira/Melissa Zambrano


O termo eco-friendly - ou amigável ao meio ambiente - é usado para caracterizar aquilo que realizamos, usamos ou descartamos sem causar danos à sociedade e à natureza ou cujos impactos são reduzidos quando comparado com algo que seja equivalente, mas sem ter este cuidado socioambiental. A postura socioambientalmente correta não diz respeito apenas aos processos de produção e consumo, para uma pessoa ou organização ser considerada de fato eco-friendly é preciso materializar esta visão com hábitos perenes em todos os momentos e situações.


No caso da pessoa, esse cuidado abrange desde a escolha dos itens para a alimentação, passa pelos artigos de vestuário, higiene pessoal, beleza e saúde, pelo uso de utensílios de metal, vidro e louça em detrimento aos de plástico, pelos meios de transporte utilizados e pelos hábitos no lazer e no trabalho, enfim nossas de- terminações para todas as situações. Na alimentação, por exemplo, significa reduzir ou até mesmo deixar de consumir produtos de origem animal como carne, ovos e leite, priorizando o consumo de alimentos de origem vegetal produzidos localmente em sistema orgânico, além de erradicar o desperdício. Nos hábitos domésticos, outro fator importante é a arquitetura ambientalmente correta, caracterizada, por exemplo, pelo uso de pontos de luz natural, sistema de energia renovável e a reutilização de água. A separação do lixo e a correta destinação desses também faz parte dessa consciência.


Já quando se pensa em uma organização, se pode considerar critérios como a escolha dos insumos e matérias-primas de fontes renováveis e não agressivas à saúde humana nem ao meio ambiente, os processos de fabricação mais enxutos e com menor gasto de energia elétrica, o respeito com relação à segurança e o bem-estar dos trabalhadores, por exemplo. Nesses processos de escolhas é levado em consideração todo tipo de impacto decorrente de todo o processo, desde a origem até o uso e o descarte final. Uma empresa que estabelece para si um modelo de negócios amigável deve promover o desenvolvimento social e a proteção ambiental, e pode buscar alguma certificação, inclusive em âmbito global, para comprovar que as suas práticas são de fato além da propaganda.


Exemplos inspiradores


A quantidade de empresas do sistema coureiro-calçadista que já promovem a gestão de seus negócios tendo a sustentabilidade socio-ambiental como base aumenta escalonadamente, e tudo inicia na cadeia de fornecimento. A Coim e a Magma são dois exemplos de empresas que se preocupam com o legado deixado para as futuras gerações, e buscam desenvolver materiais e componentes que possam ajudar as outras empresas a também serem mais sustentáveis.


A Coim Brasil atua nos segmentos alimentício, calçadista, moveleiro, automobilístico, construção civil, de cosméticos. Pensando na sustentabilidade como uma forma de gerir as ações, de modo a garantir um mundo melhor ou igual ao que temos para as futuras gerações, extraindo e devolvendo ao meio ambiente produtos e atitudes sustentáveis, a empresa desenvolve várias políticas internas de sustentabilidade, como reuso de produtos, destinação correta de rejeitos e separação de materiais para reciclagem.


Com relação a produtos, lançou de forma global duas linhas de Poliuretano, Urexter RS (Sistemas de PU para Solados) e Laripur RS (TPU) de durezas 65 a 85 Shore A, para o segmento calçadista, a qual chama de linhas Green, nas quais mais de 70% das matérias-primas que as compõem são à base de fontes renováveis. E com isso, deixa de ser dependente de 100% das matérias-primas de fontes fósseis. “O conceito ecologicamente correto é aplicado inicialmente nestas duas linhas de produtos, porém isso será desenvolvido e inserido em todas as linhas da Coim quando tivermos o mesmo nível de performance dos materiais Green, como aconteceu com as linhas Urexter e Laripur”, destaca o gerente de Negócios Latam Urexter/Diexter, Alexandre Maia Birolim. Ele explica que para isso a empresa trabalha em duas frentes: produzindo Polióis e Poliuretanos com alto teor de fontes renováveis, reduzindo a emissão de CO2 na atmosfera durante o ciclo de produção, e produzindo poliuretanos que podem ser reciclados mecânica e quimicamente, para reduzir o impacto ambiental no solo.


O gerente de Negócios TPU, Alexandre Frank Savignani, complementa que a transição de fontes fósseis para fontes renováveis apresenta outras vantagens, como a possibilidade de obter produtos duráveis usando as mesmas tecnologias e máquinas de produção tradicionais. Ele destaca que o mercado calçadista hoje busca alternativas de produtos que possam diferenciar-se do que já existe atualmente e uma das opções são os produtos ecologicamente corretos ou que sejam fabricados de fontes renováveis que possuam o menor conteúdo possível ou mesmo zero percentual de produtos provenientes de fontes fósseis. Segundo ele a Coim busca estar sempre um passo à frente no mercado, oferecendo produtos e alternativas que possam auxiliar os clientes a desenvolver calçados e solados de qualidade igual ou mesmo superior aos oferecidos em qualquer mercado global.

O Grupo Magma: Tubox e Espugum Ortholite desenvolve uma série de soluções para as indústrias calçadistas. A Magma atua no comércio, importação, distribuição e fabricação de tecidos, laminados sintéticos, espumas, borrachas, palmilhas, bojos e acessórios. Já a Espugum fabrica palmilhas em espuma Ortholite, EVA, PU derramado além de outros tipos de termo moldados. Conforme o diretor da empresa, Fernando Nicory, a sustentabilidade é pensada pela organização muito antes desse assunto virar o centro das discussões. “Alguns dos nossos produtos, como Tubox por exemplo, foram concebidos há quase 15 anos, e desde o início utilizamos 100% de resíduos de plásticos compósitos feitos por misturas de polímeros, de difícil aproveitamento, e que acabariam em aterros sanitários. Já na linha de espumas Ortholite, trabalhamos com resíduos de pó de borracha (pneus e solados), além de poliol vegetal a base de óleo de mamona”, ilustra Fernando, complementando que entre as diversas formulações desenvolvidas pela empresa, há desde 6% de conteúdo sustentável até 98%, com palmilhas feitas inteiramente de resíduo de corte.


Uma das maiores preocupações da Magma é seu compromisso com o meio ambiente, por este motivo, desde o início das atividades, procura minimizar o desperdício e o impacto ambiental através do reuso de toda embalagem plástica produzida pelas fábricas e lojas, produzindo com estes materiais as palmilhas da linha Tubox. Assim como a Ortholite Reciclada, fabricada pela Espugum, que utiliza os resíduos de espumas gerados dentro da própria indústria.


De acordo com Fernando, diante das oportunidades do mercado, cada vez mais o consumidor final tem se conscientizado sobre práticas sustentáveis, fazendo com que as empresas busquem alternativas e privilegiem os fornecedores que permitam uma melhoria em seus índices de sustentabilidade. “Isso vale não só para os clientes como também na busca de fornecedores, uma vez que oferecemos uma alternativa para a reciclagem de certos resíduos industriais inviáveis de reciclar de outras formas. Para nós é relevante investir e oferecer tecnologias que agregam diferenciais e uma estrutura indispensável para a qualidade do produto final, com produtos e composição ecologicamente corretas, produzindo o mínimo de impacto ao meio ambiente”, afirma.


A sustentabilidade em diferentes definições


Economia solidária - Sistema de produzir, vender, comprar e trocar o que é preciso para viver, sem explorar os outros, sem querer levar vantagem, sem destruir o ambiente, visando ao bem-estar social.


Slow fashion - Preza pela diversidade, prioriza o local em relação ao global, promove a consciência socioambiental, contribui para a confiança entre produtores e consumidores, pratica preços reais que incorporam custos sociais e eco- lógicos, e mantém sua produção entre pequena e média escalas.


Veganismo - Ser vegano significa a prática de dispensar todos os produtos derivados de animais: Não comer carne e nenhum produto de origem animal, como peixes, mariscos, ovos, leite e laticínios. Produtos veganos são aqueles em que não são utilizadas matérias-primas de origem animal, mas isso não significa que não contenham materiais sintéticos. Os cosméticos naturais devem conter, pelo menos, 95% de substâncias naturais e 5% de matérias-primas orgânicas ou sintéticas. Os produtos veganos são aqueles cujas marcas não utilizam qualquer tipo de ingrediente de origem animal, além de serem cruelty-free (livre de crueldade), o que quer dizer que o teste em animais é estritamente proibido - inclusive terceirizar o serviço. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) 2012, 8% da população se declaram pessoas vegetarianas, o que abre um leque de oportunidade para os produtos veganistas.


Desenvolvimento sustentável - Entendido como o desenvolvimento que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade das futuras gerações de suprirem as suas próprias necessidades - foi concebido de modo a conciliar as reivindicações dos defensores do desenvolvimento econômico como as preocupações de setores interessados na conservação dos ecossistemas e da biodiversidade. Gestão sustentável é, portanto, a capacidade para dirigir o curso de uma empresa, comunidade ou país, através de processos que valorizam e recuperam todas as formas de capital, humano, natural e financeiro. Para um empreendimento ser considerado sustentável, é preciso que seja ecologicamente correto, economicamente viável, socialmente justo e culturalmente diverso.


Produção limpa - É uma abordagem para a produção ecoeficiente, ou seja, os fabricantes devem se preocupar desde o projeto, a seleção de matérias-primas, o processo de produção, o consumo, a reutilização, o reparo, a reciclagem até a disposição final dos produtos. Para tanto a logística reversa deve ser utilizada. As principais características de um bem produzido segundo os critérios da produção limpa são: utilização de materiais não tóxicos e reutilizáveis, processo limpo e com baixo consumo de energia, mínima utilização de embalagens, facilidade na montagem, desmontagem, conserto e reciclagem, destinação final ambientalmente adequada gerida pelo fabricante.


Análise do ciclo de vida - Ferramenta que permite a quantificação das emissões ambientais ou a análise do impacto ambiental de um produto, sistema ou processo. Essa análise é feita sobre toda a “vida” do produto ou processo, desde a extração das matérias-primas, no caso de um produto, até quando o produto deixa de ter uso e é descartado como resíduo, passando por todas as etapas intermediárias (manufatura, transporte e uso). Esta ferramenta é muito utilizada para comparar o impacto ambiental de diferentes produtos com similar função e também o impacto de diferentes tipos de tratamento de resíduos, como a incineração versus aterro sanitário, por exemplo, ou ainda o impacto na natureza proporcionado por diferentes destinos para um determinado resíduo, tais como a reciclagem e a compostagem de papel, além de analisar os impactos dos diferentes tipos de reciclagem de materiais como o plástico ou qualquer outro.


Reciclagem - Termo utilizado para designar a reutilização de materiais beneficiados como matéria-prima para um novo produto com as mesmas características do estado original. Uma lata de alumínio, por exemplo, pode ser derretida e voltar ao estado idêntico ao que estava antes de ser beneficiada e transformada novamente em lata, preservando as suas propriedades. As maiores vantagens da reciclagem são a minimização da utilização de fontes naturais, muitas vezes não renováveis, e a minimização da quantidade de resíduos que necessitam de tratamento final, como aterramento, ou incineração.


Reaproveitamento - Consiste em transformar um determinado material já beneficiado em outro. Um exemplo claro é o reaproveitamento do papel. O papel de reaproveitamento não é nada parecido com aquele que foi beneficiado pela primeira vez. Este novo papel tem cor, textura e gramatura diferente. Isto acontece devido à impossibilidade de retornar o material utilizado ao seu estado original e sim transformá-lo em uma massa que ao final do processo resulta em um novo material de características diferentes. Outro exemplo é o vidro. Mesmo que seja “derretido”, nunca será feito um outro idêntico em sua cor e dureza pois, na primeira vez em que foi manufaturado, utilizou-se de uma mistura formulada a partir da areia. No segmento da moda, um exemplo de reaproveitamento de materiais que tem crescido é a utilização de PET para o desenvolvimento de tecidos, que podem combinar ainda outros materiais na sua composição, como retalhos de algodão. Essa nova matéria-prima pode ser utilizada para várias finalidades, como a confecção de cadarços, cabedais, roupas e acessórios.


Ciclo de vida fechado - No ciclo de vida fechado, os resíduos passam por processo que buscam aproveitar ao máximo suas propriedades, inclusive transformando-os novamente em matérias-primas que vão reiniciar todo o processo. Um exemplo bem claro deste sistema é o das latas de alumínio, já citado no conceito Reciclagem. O alumínio é um material ideal para o ciclo fechado, pois, ao ser reciclado, torna desnecessária a extração de mais minério para a produção de uma nova lata, além de evitar a destinação desses resíduos em aterros ou lixões. Na prática, funciona assim: as latas são compradas como embalagens para produtos. Depois que seu conteúdo é consumido, elas são separadas, coletadas e prensadas, para facilitar o transporte até a usina de reciclagem. Lá, o material é fundido, para ser derretido e transformado em lingotes de alumínio. Esses lingotes são prensados e viram chapas que darão origem a novas latas, as quais receberão novos produtos e recomeçarão todo o ciclo.


Tratamento de resíduos - Trata-se de um conjunto de métodos e operações necessárias para respeitar as legislações aplicáveis aos resíduos, desde a sua produção até o destino final com o intuito de diminuir o impacto negativo na saúde humana, assim como no ambiente. Pode consistir numa deposição final, ou um tratamento intermédio, que diminua a periculosidade dos mesmos, possibilitando a sua reutilização ou reciclagem. No setor calçadista, por exemplo, uma prática que tem sido utilizada é a transformação do couro curtido ao cromo em adubo orgânico.


Produto sustentável - Diferentemente dos produtos ecológicos, que estão mais focados no meio ambiente, os produtos sustentáveis preocupam-se com toda cadeia de produção do mesmo. Sendo assim, eles visam, além da parte ambiental, o desenvolvimento econômico e o social. Portanto, pode ser considerado produto sustentável aquele que é proveniente de fontes renováveis, com um processo que trate adequadamente os resíduos, que apresenta baixo consumo de água, entre outros.


Logística reversa - É a área da logística que trata do fluxo físico de produtos, embalagens ou outros materiais, do ponto de consumo ao local de origem, com o menor risco ambiental possível. Como exemplos, temos o retorno das garrafas e a coleta de lixos e resíduos recicláveis ou reaproveitáveis. Mas atualmente este é um conceito muito mais abrangente, envolvendo todos os fluxos físicos, informacionais, toda a gestão de materiais e toda a informação inerente, nos dois sentidos, direto e reverso. Esta é uma preocupação constante para as empresas e organizações públicas e privadas, tendo quatro grandes pilares de sustentação (conscientização dos problemas ambientais; sobrecarga dos aterros; escassez de matérias-primas e política/legislação ambiental).