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Brasil tenta conter avanço de importados asiáticos enquanto setor têxtil revê modelo produtivo

  • 9 de abr.
  • 3 min de leitura

A indústria têxtil brasileira entrou em 2026 pressionada pelo avanço contínuo

de produtos importados, sobretudo da Ásia, e pela necessidade de reavaliar seu modelo produtivo. Dados consolidados da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) mostram que as importações cresceram cerca de 25% ao longo de 2025, impulsionadas por itens de menor preço e produção em larga escala. No mesmo período, o Brasil encerrou o ano com déficit superior a US$ 6 bilhões na balança comercial do setor, segundo números do Ministério do Desenvolvimento Indústria Comércio e Serviços (MDIC).

O cenário tem afetado diretamente a competitividade dos fabricantes nacionais, que lidam com custos elevados, volatilidade cambial e menor escala produtiva. Para empresas com trajetória consolidada, os impactos são imediatos. É o caso da Declaus Confecções, com 31 anos de atuação no segmento. Segundo o fundador da empresa, Cláudio Costa Cardozo, o produto importado, principalmente o chinês, mudou a dinâmica do mercado. “Fui à China em 2009 para entender o processo e identificar como diferenciar nosso produto dentro de uma produção totalmente nacional”, afirma o empresário, responsável pela gestão estratégica da companhia.


Custos estruturais ampliam a distância entre Brasil e Ásia

Estudos recentes da Abit indicam que o custo de produção de uma peça básica no Brasil permanece até 30% mais alto do que em polos industriais da China e do Vietnã, reflexo da carga tributária, do preço da energia e dos encargos trabalhistas. Ao mesmo tempo, o varejo global passou a operar com ciclos mais curtos e reposições rápidas, favorecendo países com elevada escala produtiva e maior flexibilidade logística.

Levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta que, entre 2015 e 2025, a indústria têxtil nacional perdeu aproximadamente 18% de participação no mercado interno. As categorias mais afetadas continuam sendo malharia básica, algodão e produtos associados ao modelo de moda rápida.

A consolidação do e-commerce internacional também redesenhou os hábitos de compra no Brasil. Segundo o Datareportal, mais de 60% dos consumidores brasileiros adquiriram algum item de moda online em 2025, ampliando o acesso direto a produtos estrangeiros e elevando a pressão por preços mais baixos.

Para Cláudio Cardozo, a resposta passa por estratégia e posicionamento. “Investimos em eficiência, qualidade e relacionamento com clientes. No setor têxtil, não é possível competir apenas por preço; é preciso entregar valor agregado”, observa.


Caminhos para enfrentar a pressão externa

Pesquisadores e entidades do setor avaliam que a recuperação da competitividade depende de um conjunto de medidas estruturais que combinam gestão, tecnologia e foco em nichos específicos. Entre as principais frentes estão:


- Automatização e digitalização – Corte automatizado, rastreabilidade por RFID e sistemas integrados de controle de produção reduzem perdas e elevam a produtividade. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima ganhos de até 22% no desempenho operacional com a adoção de tecnologias digitais.


- Produtos de maior valor agregado – Malhas funcionais, fibras sustentáveis e coleções de menor escala apresentam menor concorrência direta com importados de baixo custo.


- Revisão de custos e processos – Estoques, fornecedores e consumo energético passam a ser monitorados de forma contínua.


- Fortalecimento de cadeias regionais – Produção mais próxima do varejo reduz prazos e permite ajustes rápidos à demanda.


- Educação do consumidor – Durabilidade, rastreabilidade e responsabilidade produtiva ganham peso na decisão de compra.


Segundo o empresário, a consistência operacional segue como fator-chave. “O setor já enfrentou muitos ciclos. Quem trabalha com gestão estruturada e disciplina na produção consegue manter resultados mesmo com a competição internacional”, afirma.


Perspectivas para 2026 e recomendações para pequenas empresas Para 2026, a Abit projeta crescimento entre 2% e 3% na produção, condicionado ao desempenho do consumo interno, ao comportamento do câmbio e a possíveis ajustes em políticas de defesa comercial. O consenso no setor é que a concorrência com importados asiáticos continuará intensa no curto prazo.

Para pequenas e médias confecções, especialistas recomendam revisão rigorosa de custos fixos e variáveis, análise detalhada das margens por produto, mapeamento de gargalos produtivos, investimento seletivo em capacitação e tecnologia e diversificação dos canais de venda.

A avaliação predominante é que empresas que apostarem em eficiência, inovação e posicionamento têm espaço para manter relevância no mercado interno, mesmo em um ambiente mais competitivo.

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