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Protagonistas na geração de negócios para o setor, feiras se readéquam rapidamente ao NOVO MERCADO

* Luís Vieira

O mercado brasileiro de feiras de negócios é um dos mais diversificados do mundo. De acordo com o portal Feiras do Brasil, somente em São Paulo, o setor movimenta em média R$ 15 bilhões por ano. No ano passado, 1.182 promotores realizaram no País nada menos que 3.962 feiras e eventos de 38 segmentos econômicos, em 784 centros de eventos de 615 cidades, atraindo 200 mil expositores e 12 milhões de visitantes. No período, mais 300 novos empreendimentos foram criados neste nicho de mercado. Especificamente no primeiro semestre de 2020, aconteceriam 517 eventos de negócios em nossa nação, com destaque para o segmento industrial. Então não é por acaso que as feiras setoriais se tornaram uma das mais importantes ferramentas para as indústrias do sistema coureiro-calçadista divulgarem os seus artigos - sejam insumos, materiais, produtos acabados, máquinas, equipamentos ou serviços. Segundo levantamento do portal, são 20 eventos de exposição cadastrados no Brasil para impulsionar as vendas deste setor econômico.


Nos últimos anos, na busca de atender e até mesmo antecipar as necessidades dos clientes - sejam eles expositores, visitantes ou compradores -, as promotoras avançaram no aprimoramento de suas estratégias para, cada vez mais, tornar o ambiente da feira um local também para a disseminação de conhecimentos estratégicos para o mundo dos negócios e a troca de experiências, auxiliando os participantes na tomada de decisões.


Workshops, visitas guiadas, fóruns, desfiles, rodadas de negócios exclusivos para importadores, espaços para experiências sensoriais. Estes são alguns exemplos do que o visitante pode encontrar pelos pavilhões de exposição, que também passam por modernizações em suas áreas destinadas tanto para a exibição de produtos quanto para os deslocamentos e a convivência do público. Tudo para proporcionar mais conforto aos frequentadores e favorecer as negociações nesses ambientes cada vez mais voltados à sustentabilidade e à inovação.


Entretanto, com o avanço da contaminação pelo novo coronavírus, o Covid-19, teve início uma mudança brusca no comportamento humano. O distanciamento social provocado pela pandemia afetou seriamente o setor e as promotoras precisaram ser ainda mais ágeis para oferecer soluções ao mercado.


Reprogramações de datas e a oferta de novas plataformas de negócios e relacionamentos foram recursos encontrados para este momento de grandes desafios para toda a sociedade.


Para a realização desta reportagem entramos em contato com as empresas organizadoras de algumas das principais feiras setoriais para que seus dirigentes relatassem como se reprogramaram ante as novas exigências. A Couromoda, realizada pelo Grupo Couromoda, e a 40 Graus, realizada pela Merkator, aconteceram respectivamente nos últimos meses de janeiro e fevereiro, portanto antes da pandemia se alastrar por todo o planeta, e as suas próximas edições, acredita-se, serão realizadas num momento em que o mercado começa a de fato a se recompor, num ambiente em que as novas práticas de higienização e proteção à saúde já estejam assimiladas pelo público, e talvez já se tenha um melhor controle sobre a doença. Realizada pela Fenac, a feira Fimec, por sua vez, iniciou num período transitório, tendo a sua conclusão junto com o surgimento das primeiras restrições de deslocamento de pessoas no País. Precisou negociar a não vinda de chineses e italianos, pois naqueles países as contaminações pelo Covid-19 avançavam em larga escala, e criou em tempo recorde todo um sistema de proteção à saúde de quem circulava pelos pavilhões durante os três dias do evento.


Depois destas, as próximas feiras, Sicc, realizada pela Merkator, Francal, pelo grupo Francal e Inspiramais, pela Assintecal, foram reagendadas, mas, acima de tudo, se tornaram as pioneiras em avançar de fato no formato online. Já a feira de segurança Fisp, promovida a cada dois anos pela Cipa Fiera Milano e entidades parceiras, segue até o fechamento desta edição com a data original confirmada para o próximo mês de outubro. Além de ter também avançado nestas questões, a feira é palco para um dos setores mais exigidos durante a pandemia, que são os fabricantes de EPIs.


São casos sobre diferentes realidades e estratégias, mas em todos eles uma mesma certeza: a de que o mundo já não é o mesmo e as mudanças a partir de agora serão ainda mais impactantes nos formatos de negócios deste setor.



Na opinião do diretor da Couromoda, Jeferson Santos, a feira foi menos impactada pela pandemia que outras do setor, uma vez que o evento ocorre sempre em janeiro.


“Claro que processos de renovação e ou ampliação de espaços ficaram estagnados. Porém, acreditamos que nossa próxima mostra será bastante positiva, por ser a primeira a ser realizada presencialmente após a pandemia. Certamente com todos os protocolos de segurança para a garantia de um evento sem expor ninguém a riscos desnecessários.


Eventuais mecanismos digitais podem ser incorporados, mas nada que tire o protagonismo do contato direto entre os players do mercado. Até mesmo porque tecnologia e relações humanas não são excludentes. Pelo contrário, se complementam.


A otimização dos espaços das empresas nas feiras, ajustados para atender com exatidão suas necessidades, já era uma realidade e se manterá no futuro próximo. Porém, mais e mais empresas deverão fazer parte das feiras profissionais, pois é lá que os negócios são acelerados e potencializados.


Sobre a próxima edição, já há sondagens por parte de marcas que estavam afastadas e que agora repensam esta posição. Há uma demanda reprimida, as lojas não renovaram suas coleções de calçados e bolsas para a temporada de inverno, e logo começarão a comprar artigos de verão. Os consumidores terão acesso a eles em setembro, justamente no período que a economia deve já estar retornando aos trilhos. Com isso, as vendas de Natal e final de ano podem surpreender positivamente. Todo este cenário aponta para uma grande feira. Creio que pouco vezes fomos tão relevantes para o mercado como agora.”

A Merkator Feiras e Eventos precisou trocar a data de realização do Sicc, criou um novo evento: o emerkator, e anunciou algumas mudanças de conteúdo e formato. Mas as outras feiras da promotora – Zero Grau e 40 Graus - continuam com as suas datas confirmadas em novembro e fevereiro, respectivamente. Para o diretor da empresa, Frederico Pletsch, a principal lição destes dias de pandemia global é a necessidade da humildade.


“Neste momento, foi possível ver que todos somos iguais, precisando parar, refletir para nos protegermos. Não existe fórmula para uma ou outra camada social. Acho que esta será a grande lição destes dias de isolamento.


Acredito muito no olho no olho, no aperto de mão, no abraço. Sei que agora isto está difícil, mas vai passar e retornaremos a nossa situação de humanos, buscando o carinho e o aconchego nas pessoas queridas e amigas.


Mas também sei que o digital tomou grandes proporções e isso não tem retorno. Aposto na união destes dois mundos e vamos trabalhar muito para acompanhar esta evolução e oferecer ao mercado sempre o mais atual, auxiliando nas decisões das empresas e dos profissionais do varejo ou da indústria. Continuaremos com o nosso tripé de negócios e turismo amparado na informação de qualidade. Temos que ser eficientes, isto o mercado cobra. E procuramos nos aprimorar para dar a melhor resposta que conseguimos encontrar.


Acredito no desejo e na necessidade dos personagens do setor de querer se encontrar e isso vai facilitar os eventos. O futuro é o casamento do presencial com o virtual e estamos nos preparando para isto. Sempre estamos nos reinventando para buscar novas alternativas, novas fórmulas e acho que este é um movimento muito atual que todas as empresas fazem. Mas o que nós fizemos, pensamos e planejamos sempre buscamos validar com nossos parceiros, que são o nosso norte para tomadas de decisões. Para isso, temos uma bela parceria bem sólida e amigável com os sindicatos e as entidades.”


A Francal precisou trocar a sua data e anunciou mudanças de formato. O presidente da feira, Abdala Jamil Abdala, lembra que este é um momento sem precedentes na história recente da humanidade. Além das restrições para a promoção dos eventos, a quarentena impactou toda a cadeia e comprometeu a capacidade de investimento de expositores e visitantes.


“A primeira e mais visível mudança foi fundir os dois eventos já programados, a Francal Ablac Show e o Salão Alto Verão. Junto com a fusão e o adiamento, desenvolvemos um novo formato para deixar a feira mais viável e alinhada com as melhores práticas dos eventos internacionais. Esta situação confirmou a nossa capacidade para sermos flexíveis e reinventarmos os negócios em alinhamento com as demandas e oportunidades dos setores econômicos, mantendo o diálogo constante, franco e transparente com seus representantes.


Estamos atentos ao desenrolar dos acontecimentos, para definir a questão da data para a realização da próxima Francal. Neste meio tempo, realizamos ações no ambiente digital oferecendo conteúdo de valor para toda a cadeia, em complemento ao evento presencial. Esta experiência aponta para um caminho: cada vez mais vamos nos relacionar com o mercado nos ambientes físico e virtual.


Há uma tendência mundial de diminuição de área nas feiras, ligada não só a fatores econômicos ou ao distanciamento social, mas ao novo comportamento de expositores e visitantes, voltado a eventos mais focados, que tragam resultados efetivos para expositores e visitantes. Cabe a nós, promotores, entendermos as mudanças de modo a manter as feiras atrativas e relevantes para o mercado.


Estes realinhamentos sempre fizeram parte da nossa visão de negócio e isso fica ainda mais evidente com a velocidade da informação e a maior conscientização dos consumidores nos últimos anos. O advento da Covid-19 é mais um fator que nos motiva a continuar a evolução dos nossos eventos para atender novas exigências do mercado.”

A superintendente da Assintecal, Ilse Guimarães, lembra que o Inspiramais é o único salão de design de materiais para moda da América Latina, e o motivo de conquistar tanta notoriedade no mercado nacional e internacional é justamente por estar sempre na vanguarda. A próxima edição será em agosto, totalmente em formato virtual.


“O mercado já vem passando por transformações significativas há muito tempo e o Inspiramais sempre se antecipa a isso. Este ano o tema do salão é Free Spirit, que já estava formatado antes do momento atual, e fala de ressignificação das relações e do mundo como conhecemos hoje. Será um evento durante o qual estaremos conectados não só com as empresas e visitantes atuais, cruzando fronteiras que o mundo físico nem sempre possibilita. Mas iremos além de um evento no formato digital, vamos levar uma experiência para o mercado de moda.


Os eventos, de maneira geral vêm sofrendo mudanças ao longo dos anos. A tecnologia encurtou a distâncias. Hoje é fácil se relacionar regionalmente e manter a comunicação junto a matrizes que ficam em outros Estados ou países. Tudo é realizado de modo imediato pela tecnologia. Há também a customização da produção, seja pelos processos tecnológicos, que permitem produções mais rápidas e menores sem oneração para indústria, seja pelas demandas dos próprios consumidores. Outro aspecto é a necessidade de as relações de mercado se pautarem pela sustentabilidade - por adequação de custos, pelas facilidades, ou mesmo pela consciência de diminuir desperdícios. O fato é que estamos adiantando processos que seriam inevitáveis.


O Inspiramais continuará atuando na vanguarda - seja no mundo híbrido ou no virtual, antecipando referências, trazendo design, inovações e conceitos que traduzam uma identidade de moda genuinamente autêntica, estimulando processos sustentáveis e repassando ferramentas e metodologia para que as empresas sejam mais assertivas em qualquer momento.”



O diretor-presidente da Fenac, Marcio Jung, lidou com situações bem delicadas. Já no final de janeiro contatou os expositores chineses e negociou a não vinda deles, pois o problema, no momento, se restringia aquele país. Na sequência, com os italianos, e aconteceu, inclusive, a interrupção dos voos Itália/Brasil. E esses dois países são extremamente importantes para a Fimec.


“Não houve casos de infecção dentro da feira. Tivemos cuidados especiais, estamos totalmente adequados para receber o Selo de Biossegurança do Ministério de Turismo, Ministério da Saúde e Anvisa, e toda as nossas feiras daqui para adiante terão esta conformidade.


Alternativas e mudanças são pensadas no dia a dia de quem planeja feiras e eventos, mas acreditamos no formato presencial. O que vai acontecer após o Covid-19 é a vontade das pessoas se relacionarem proximamente. Quem aposta que tudo se tornará virtual, principalmente as relações comerciais, está trilhando um caminho bastante equivocado. Também não concordamos com a afirmação de que há uma tendência de as feiras diminuírem suas áreas de exposição, a diminuição acontece especificamente em alguns setores da economia, mas principalmente em algumas cidades ou regiões. No caso da Fenac, nos últimos anos dobramos o número de feiras próprias (de 4 para 8) e elas estão indo muito bem e em crescimento. Consideramos, sim, que alguns modelos antigos de feiras demoraram para se readequar num processo que houvesse atrações.


As feiras terão seus objetivos cada vez mais claros, pois os visitantes estarão focados em fazer negócios. Podemos prever a diminuição do número de pessoas, mas não no número de negócios que uma empresa realiza dentro ou em virtude da sua participação na feira. Muito antes pelo contrário, estamos otimistas e prevendo uma Fimec 2021 maior que a de 2020.


Fazer novos formatos não, tem que ter adaptações gigantescas. Está se falando muito num “novo normal”, como se fosse obrigatória uma mudança absurda. As coisas vão mudar, vão se adaptar, vão se acalmar, como já aconteceu no curso da humanidade diversas vezes. Hoje estamos planejando tudo para termos um futuro melhor, mas o futuro nos reserva situações que talvez nos surpreendam e talvez por caminhos inusitados.”


Ao salientar que é preciso estar sempre preparado, pois são nos períodos de dificuldade que as feiras conseguem se reinventar de fato, o diretor geral da Fisp, Maurício Duval Macedo, observa que a crise está deixando claro o quão essencial é a socialização, assim como são os eventos ao vivo e as reuniões cara a cara, pois o ser humano é gregário, não consegue viver continuamente apartado.


“Vamos manter o mesmo formato que sempre usamos. A diferença será a aplicação de protocolos internacionais de segurança e distanciamento para garantir tanto a segurança dos visitantes, quanto dos expositores e dos nossos colaboradores. Nossa meta é que o evento funcione com toda a sua capacidade, mantendo a característica da feira de proporcionar ao expositor um público visitante qualificado.


Nossa equipe trabalha para entregarmos uma excelente feira, com foco na geração de negócios. Além do site do evento, as redes sociais foram ampliadas para dar mais visibilidade à feira e estamos definindo outras plataformas e canais digitais para manter a relação com o público da feira ao longo de todo o ano, pois entendemos que essa constante proximidade é muito importante.


Isso já era uma tendência, mas ela se reforça com o Covid-19. Eventos de negócios, como feiras e congressos, sempre foram catalisadores e facilitadores de mudanças nas mais diferentes atividades, e as feiras criam ainda

o ambiente propício para insights e novas ideias.”

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