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Preocupação com transmissão de vírus exige o desenvolvimento de novos materiais


O assunto foi debatido no Happy Hour com Tecnologia do IBTe C


A preocupação com a disseminação de vírus é uma realidade que passou a fazer parte da vida de indústrias de todos os segmentos, e deverá exigir o desenvolvimento de tecnologias e produtos para proteger as pessoas. Este é o resumo da opinião de todos os participantes do Happy Hour com Tecnologia realizado pelo Instituto Brasileiro de Tecnologia do Couro, Calçado e Artefatos (IBTeC) no último dia 19 de novembro.


A instituição reuniu o coordenador do Laboratório de Microbiologia do IBTeC, Dr. Markus Wilimzig; o diretor Técnico da Dublauto Gaúcha, Evandro Wolfart; o diretor geral da TNS Tecnologia, Gabriel Nunes, e o gerente técnico da RCA, Renato Cattini Filho, para discutir o tema Antivirais: tecnologias, aplicações e mercado. O vice-presidente executivo do IBTeC, Valdir Soldi, foi o mediador do debate.


O Dr. Markus Wilimzig abriu as discussões, lembrando que até março de 2020, o setor calçadista brasileiro pouco falava sobre vírus - as preocupações sempre foram chumbo e bactérias, além de outros microorganismos, e a partir de agora muitas outras questões farão parte do dia a dia das empresas”. Perguntado sobre qual a diferença entre vírus e outros microorganismos, como fungos e bactérias, Markus afirma que vírus são só uma parte de material genético, uma partícula infecciosa. E lembrou que os vírus precisam sempre de outra célula, que pode ser humana, de planta ou de bactérias, para se replicar, e com isto começam as doenças.


Na sequência, cada um dos convidados apresentou um histórico resumido de suas empresas, e dos produtos criados para enfrentar o Coronavirus. Gabriel Nunes contou que a TNS tem onze anos e surgiu a partir de um prêmio de inovação. A TNS está dividida em três áreas de atuação - área de química, área de care e de agro, e exporta para 16 países. Especificamente na área de soluções antivirais, a empresa foi a primeira da América a lançar solução, e hoje está em oito países com sua tecnologia. De acordo com Gabriel, “somos uma startup catarinense que hoje tem reconhecimento no mundo”.


O gerente técnico da RCA, Renato Cattini Filho, apresentou a empresa que tem 20 anos de mercado, atuando nas áreas de têxteis e polímeros com parte de acabamentos especiais - compostos florados, acabamento retardante a chamas e linha de acabamentos antimicrobianos. De acordo com Renato, a RCA trabalha em parceria com uma empresa global, a Life Materials, com sede na Indonésia, atuando em todo o mundo.


Falando sobre acabamentos antimicrobianos, desde 1998 a empresa trabalha nesta área. Foi quando se iniciou no Brasil este conceito, nos mercados de colchões, tapetes e carpetes, que tinham preocupação de evitar alergias. Evitar a proliferação de fungos e ácaros eram as preocupações na época. Ele enfatizou que a empresa tem praticamente todo o portfólio de princípios.


Sobre a situação vivida hoje pelo mundo, Renato afirma que “recentemente, com a introdução da necessidade de acabamentos antivirais, muitos dos produtos que a gente trabalha já demonstraram performance para esta demanda”.


Evandro Wolfart, diretor técnico da Dublauto Gaúcha, contou que a empresa existe desde 2003, e em 2006 iniciou pesquisas incorporando a nanotecnologia em têxteis, entre elas o antimicrobiano. A partir da pandemia surgida em março do ano passado, começaram a testar os mesmos produtos que usavam em têxteis para fins antivirais, e os resultados foram muito positivos. Recentemente, a empresa conseguiu subvenção para iniciar pesquisa para aprimorar o desenvolvimento na aplicação para EPIs em geral, utilizando prata, cobre e zinco como ativos. Em fase adiantada, a pesquisa já tem resultados excelentes para apresentar para o mercado.


Sobre como a empresa vem atuando para atender seus clientes na busca de soluções antivirais, Gabriel Nunes afirmou que “existe potencial imenso de que os antimicrobianos comuns, já conhecidos, pudessem atuar como antiviral. O que ficou constatado com as pesquisas é de que nem todos dão a resposta necessária”. Por isto, a TNS teve a preocupação de buscar formas de auxiliar os clientes, com soluções que fossem reconhecidas internacionalmente, através da ISO 18.184 e ISO 20.275, de forma que o produto fosse absorvido em todos os mercados. O destaque obtido pela TNS foi uma solução verde a base de nanopartículas de prata que utiliza estabilizantes naturais com componentes de plantas. Nunes salientou que “não basta ter ativo antiviral ou antibacteriano - ele tem que fazer mal para o vírus, sem afetar a saúde dos humanos”. Outro aspecto importante é a eventual mutacidade dos vírus, para este problema, a TNS Tecnologia entrega um produto que abrange uma série de vírus, graças ao efeito sinérgico entre diferentes tecnologias, a partir de 30 segundos da aplicação. O produto tem eficácia e solidez - a eficácia permanece acima de 99% mesmo com vários processos de lavação.


Renato Cattini lembrou que a RCA tem um histórico de pesquisa e produção de soluções antivirais, testados na eficácia antiviral com ISO 18.184, e os princípios ativos mostravam eficácia antiviral de 99,99%. “São tecnologias já existentes no mercado - a prata vem sendo trabalhada desde 2007, depois o zinco, e agora princípios ativos a base de cobre. ”

De acordo com Renato, na indústria de calçados, se falava muito no princípio antiodor, e depois a preocupação passou a ser antifúngica, porque os calçados ficam muito tempo armazenados. Então, o setor precisa que o antiviral não afete estas outras questões já trabalhadas, e além disto tem a questão do custo. De acordo com Renato, “nós testamos produtos já existentes, e percebemos que os princípios ativos atuais atendem a performance antiviral”. O que a empresa apresentou de novidade dentro da cartela de princípios ativos já disponíveis é a linha de acabamentos com princípios ativos naturais. Um produto 100% natural, extraído de plantas, que exerce as propriedades bacteriostáticas e antivirais.


Evandro Wolfart mencionou que para a aplicação do ativo em diferentes materiais, há variações, e precisam ser feitos ajustes para materiais diferentes, em função de processos e temperatura. Ele afirmou que a Dublauto Gaúcha conseguiu, a partir de março, definir antimicrobianos que se mostraram efetivos como antivirais, transformando o produto em hidrofóbico, para que as gotículas não fiquem no material, diminuindo a sua disseminação. Agora, está em desenvolvimento um não tecido de poliéster, com alguns ativos que já são usados com antimicrobiano, e um não tecido com este tratamento - uma camada de adesivo autocolante para fazer cobertura de superfícies não porosas, com esta propriedade antiviral, o que a empresa vê como uma oportunidade de mercado. Já estão fazendo protótipos para apresentar ao mercado.


O mercado pós-pandemia


Perguntados sobre como vai ser o mercado após a pandemia do coronavirus, os participantes do debate colocaram suas expectativas. Gabriel Nunes lembrou que “a TNS não está focada apenas no coronavirus; temos herpes, vírus, H1N1, uma série de outros microorganismos que estão por aí. Diante de tudo isto, acredito que a indústria não vai afrouxar a respeito do tema, não apenas para a questão de produtos antivirais, mas para as questões do nosso dia a dia”. Ele lembrou que em Hong Kong e China as máscaras passaram a fazer parte da vida das pessoas há muito tempo. Sobre as demandas do futuro, afirmou: “Acredito que os clientes continuarão preocupando-se não somente com antivirais, mas também com antibacterianos e antifúngicos, não só dentro de casa, mas dentro das empresas, das indústrias e no ambiente comum”.


Renato Cattini afirmou que “o antiviral foi um movimento importantíssimo no sentido de alertar para questão da higienização e evitar contaminação cruzada. A gente entende que vai continuar esta preocupação, mesmo com a vinda da vacina. Há necessidade de se ter polímeros, tecidos, poliuretanos e outros materiais com antivirais e antimicrobianos. Pode ser que a vacina venha e a pandemia passe, mas a proteção continuará sendo necessidade no dia a dia das pessoas”.


Evando Wolfart afirmou que “desde 2006 a Dublauto procura desenvolver antimicrobianos e antifúngicos. Acreditamos muito na importância da proteção para a não contaminação. A vacina vai ser para o coronavirus, assim como existe a vacina para o H1N1. Mas sempre haverá outros vírus e outros fungos. Na visão de Evandro, no futuro todo tecido ou todo material plástico e embalagens vai ter esta proteção, e a pandemia promoveu a aceleração desta realidade. “Daqui a pouquíssimo tempo nenhum tecido sairá da indústria sem proteções neste sentido. Isto não tem mais volta. ”


Lembrando que o Coronavirus tem estrutura fraca, Markus Wilimzig enfatizou que estamos ainda no início dos trabalhos com relação à proteção contra vírus envelopados, como o coronavírus, mas também com outros vírus não envelopados, que para o combate à propagação se necessitam de outros reagentes, outros viricidas. “Teremos muito trabalho para os próximos tempos”, previu o pesquisador. Ele ainda lembrou que o Laboratório de Microbiologia do IBTeC está à disposição das indústrias para o desenvolvimento de tecnologias e produtos para atender às demandas do mercado.


O Happy Hour com Tecnologia tem como patrocinadores Colorgraf, Covestro, Grupo Stickfran, Killing, Merkator Feiras e Eventos, Solvay Group/Rhodia e Zahonero.