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O setor de EPIs no Brasil e no mundo

Realidades e tendências do mercado que cuida da integridade física dos trabalhadores.


Autor: Luís Vieira


No Brasil, a cada minuto, um trabalhador sofre algum tipo de acidente de trabalho. Em 2018, a Previdência Social registrou 576.951 acidentes de trabalho, considerando somente os empregados com carteira assinada. Um estudo realizado pela Fundacentro - fundação ligada ao Ministério da Economia especializada na pesquisa sobre segurança do trabalho - estima que, se forem incluídos também os trabalhadores informais e os autônomos, esse número pode chegar a 4 milhões de acidentados a cada ano no Brasil.

Em 2018, o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) encerrou o processo administrativo relacionado ao tratamento e à indenização de sequelas de 595.237 acidentes de trabalho. O total gasto, incluindo auxílios e benefícios, foi de aproximadamente R$ 12 bilhões. Cerca de 17% dos acidentados necessitam apenas de cuidados médicos leves, e podem seguir normalmente seus trabalhos; 61% precisam ser afastados do emprego por um período menor do que 15 dias e, nestes casos, o empregador arca com o pagamento do salário do trabalhador; já 22% têm que ser afastados por mais de 15 dias, incluindo os casos em que resultam em incapacidade permanente (2% dos casos) e óbitos (0,4%), situações em que o dispêndio é muito maior e fica a cargo de toda sociedade.


Para evitar que os acidentes de trabalho e as doenças ocupacionais aconteçam, especialmente os mais graves, é preciso conscientização por parte do empregador, a quem cabe distribuir os equipamentos adequados e fiscalizar o uso por parte dos trabalhadores; do profissional quanto à utilização correta dos equipamentos recebidos; do poder público a quem cabe publicar as normas e emitir os Certificados de Autorização para a comercialização dos EPIs, e das empresas fabricantes, que precisam submeter seus produtos a testes de comprovação da funcionalidade.


De acordo com a Associação Nacional da Indústria de Material de Segurança e Proteção ao Trabalho (Animaseg), em nível global o setor gera negócios na ordem de US$ 43,3 trilhões. Somente no Brasil, o faturamento chega a R$ 10,3 bilhões, por uma indústria que emprega mais de 100 mil trabalhadores. Em termos de manufatura, o País representa hoje cerca de 5% do volume de toda a produção mundial, e tem potencial para crescer muito mais em pouco tempo. “Com o surgimento da pandemia, o segmento encontrou uma oportunidade única, de multiplicar por quatro a demanda por EPI no País”, aponta o presidente da entidade, Raul Casanova.


Mesmo com tanto potencial, o Brasil ainda não se destaca como exportador neste segmento. E esta é uma das bandeiras da instituição, que desde 2012 mantém um projeto para a promoção do produto nacional, com apoio da Agência de Promoção às Exportações (Apex-Brasil).


“O resultado da balança exportação X importação de EPIs ainda é muito desfavorável para nós. Principalmente durante a pandemia quando, por desconhecimento dos órgãos governamentais, que sob o pretexto de que a indústria nacional não teria capacidade de atender a demanda, zeraram o imposto de importação até para EPIs que não são destinados à área médica, além de proibirem a exportação”, lamenta Raul.


Desafios prioritários


Os principais desafios hoje para as indústrias fabricantes de equipamentos de segurança e proteção são:

* Ter uma política estatal de desenvolvimento da indústria nacional de EPIs, tanto dos produtos finais quanto das matérias-primas, política esta que possibilite termos um nível de produção local adequado e não sermos reféns da importação;

* Aproveitar a grande visibilidade que os EPIs tiveram durante a pandemia para aumentar a conscientização da população sobre a necessidade de prevenção e convencer os políticos da necessidade de se defender a indústria brasileira;

* Estender o atendimento adequado a todos os trabalhadores brasileiros, pois com base nos levantamentos da entidade, somente 25% dos profissionais do País utilizam os EPIs apropriados aos riscos a que estão sujeitos;

* Evitar a avalanche de produtos importados sem qualquer certificação e que não atendem a legislação nacional;

* Manter os preços finais de produtos brasileiros em patamares aceitáveis, mesmo com o aumento dos custos das matérias-primas, nacionais e importadas.


Avanços


Para solidificar a imagem do EPI brasileiro foi criada uma campanha de valorização dos equipamentos e de divulgação da capacidade que já existe no País. Buscando evitar a invasão dos produtos importados sem certificação, a fiscalização e as denúncias junto aos órgãos competentes foram aumentadas. Para manter os preços finais, a saída é incentivar a indústria nacional de matérias-primas.


Entre os maiores avanços do setor nos últimos anos no Brasil, a Animaseg ressalta o Comitê de EPIs junto a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), o ABNT/CB32, que congrega 23 Comissões de Estudo. Os trabalhos estão em pleno funcionamento, gerando as Normas Técnicas Brasileiras e participando de organismos internacionais em várias áreas para que o Brasil permaneça nesse campo alinhado com as mais recentes atualizações.

Outra grande conquista é a certificação brasileira de EPIs, com a chancela do Certificado de Aprovação (CA) e reconhecida por toda a indústria e trabalhadores brasileiros, tendo alcance também no exterior. Além disso, o Brasil é reconhecido pelos demais países como uma das poucas nações com um sistema de certificação que está sempre atualizada. “Toda essa evolução vem de muitos anos, mas destacamos principalmente a criação do Comitê ABNT/CB32 em 1996, a revisão da Norma Regulamentadora NR-06 em 2001, a entrada de cinco linhas de EPIs no Sistema do Instituto Nacional de Metrologia Qualidade e Tecnologia (Inmetro), de 2009 a 2014, e a nova revisão da NR-06 que está sendo processada neste momento”, destaca Raul.


Panorama do setor

Os maiores polos de produção de EPIs no Brasil estão localizados nas regiões Sul e Sudeste. O mercado de EPI luvas fatura R$ 3,4 bilhões. No País existem 482 empresas de luvas de segurança com 3.700 luvas certificadas.



O mercado de EPI vestimentas fatura R$ 2,9 bilhões. No País existem 614 empresas de vestimentas de segurança com 3.936 vestimentas certificadas. A produção total é de 25 milhões de unidades.



O mercado de EPI calçados fatura R$ 2,1 bilhões. No País existem 181 empresas de calçados de segurança com 2.213 calçados certificados. A produção total é de 60 milhões de pares.



Panorama na União Europeia


No último mês de fevereiro, a Ansell - empresa centenária que se tornou um dos grandes produtores mundiais de soluções voltadas à segurança e proteção das pessoas, apresentou ao Instituto Brasileiro de Tecnologia do Couro, Calçado e Artefatos (IBTeC) o panorama e tendências em legislação para Equipamentos de Proteção Individual (EPI) na União Europeia (UE). A apresentação foi realizada no formato online pelo diretor de Assuntos Regulatórios na Europa, Guido Van Duren, que também destacou aspectos de legislações em países de outras regiões fora da UE.


Ex-presidente da Federação Europeia de Segurança (ESF) e líder em diferentes grupos de trabalho das normas técnicas CEN/ TC 162, ISO WG8, ISO TC 94, ISO SC 13 e PG2, Guido explicou que a União Europeia criou a regulamentação 2016/425 em substituição a diretiva 89/686. A nova norma foi publicada em 2016 e passou a vigorar a partir de abril de 2018, com um período de transição até abril de 2019. A partir de então, todos os EPIs, para serem comercializados e distribuídos na UE, precisam estar em conformidade com essa regulação, que hoje vigora nos 27 países membros e em cinco outras nações - Islândia, Liechtenstein, Noruega, Suíça e Turquia.


Lembrando que estão acontecendo várias mudanças acerca das exigências para produção, testagem, comercialização e uso de EPI no mundo inteiro, Guido Van Duren comparou os ajustes que as empresas precisam fazer para que seus produtos estejam em conformidade com as diretrizes de cada mercado à montagem de um quebra-cabeça. “É um mercado muito desafiador, o ideal é que houvesse um padrão, uma norma comum aplicada no mundo inteiro em vez de se ter várias normas diferentes, algumas delas funcionando claramente como barreiras técnicas para a entrada de produtos nos mercados”, ponderou.


Um aspecto bem positivo, elencado pelo painelista é que a maioria das regulamentações existentes em várias partes do mundo estão alinhadas com as normas estabelecidas pela Europa, onde os EPIs são classificados em três categorias, de acordo com o nível de proteção necessário contra os riscos oferecidos aos profissionais durante a realização do trabalho.


As categorias I, II e III se referem respectivamente a risco baixo, intermediário e alto, e para cada uma delas são emitidas diferentes certificações comprovando a caracterização das propriedades necessárias para todos os tipos de EPI que, após serem aprovados, recebem a Declaração de Conformidade.


Essa declaração precisa acompanhar o produto certificado ou estar disponível em um link. Neste caso, a informação do endereço online onde está dispo- nível a declaração precisa constar junto do manual de instruções do EPI.


Categorias


Categoria 1 - O fabricante tem que mencionar também nas instruções que o produto deve ser usado somente na proteção de riscos mínimos.


Categoria 2 - A agência certificadora testa os produtos e compara a documentação técnica com os resultados dos testes. Se estiver tudo certo, o fabricante recebe o certificado e emite a Declaração de Conformidade.


Categoria 3 - Os produtos precisam vir acompanhados de documentação técnica emitida por um laboratório independente instalado na União Europeia. O laboratório recebe o produto do fabricante e realiza os testes para comprovar a veracidade do que o fabricante informa. Além disso, todo o ano é realizada uma auditoria na empresa com nova testagem do produto através da agência notificadora, que verifica se o sistema garante uma produção com a qualidade necessária.


Rastreamento


Para dar ainda mais segurança ao fabricante existe um sistema que mapeia toda a cadeia de suprimento. Um dos principais objetivos desse controle é agir rapidamente no caso de acontecer alguma não conformidade técnica com um EPI, que resulte na necessite de recall (solicitação de devolução de um lote ou de uma linha inteira de produtos, decorrente da descoberta de algum impedimento à segurança do usuário). “O sistema visa a facilitar a devolução e troca do EPI quando surgir um problema sério, que poderia afetar a segurança e a saúde dos usuários, como por exemplo o caso de uma roupa que deveria ser resistente à ação de produtos químicos, mas o material utilizado começa a apresentar rasgos ou buracos pelos quais as substâncias poderiam transpassar”, explica.


Assim como acontece no Brasil, a validade da certificação na Europa foi estabelecida em cinco anos. Passado este período, os produtos precisam novamente passar por uma bateria de testes que comprovem a sua eficácia em situações de risco ao usuário, sempre levando em conta a categoria para qual são oferecidos. “Mas, mesmo se, dentro deste período, acontecer alguma mudança na característica de um produto certificado, ele deve passar por todo o processo de avaliação novamente para revalidar a sua certificação”, observa Guido.


Além da necessidade de certificações, a União Europeia ainda imputa uma série de responsabilidades ao produtor, ao importador e também ao distribuidor de EPIs. O produtor pode ser tanto uma pessoa física quanto jurídica, e geralmente é ele o “dono” da certificação e também o responsável por disponibilizar o produto para o mercado. Mesmo se a empresa estiver sediada em um país, mas a produção é feita em outro, ainda assim ele é o proprietário da marca e irá responder pelo produto ofertado.


Quando a empresa produtora não tem a sua base instalada em algum dos países da União Europeia, o responsável pela colocação do produto neste mercado é do importador, e é ele quem vai ser chamado para dar explicações no caso de o produto apresentar algum problema.


O outro elo desta cadeia é o distribuidor, que assume responsabilidades mais específicas, pois apenas realiza a distribuição, sem fazer parte do pro- cesso de produção, certificação do produto e tampouco é o responsável pela entrada do mesmo na UE.


Transparência


O fabricante deve garantir que o EPI é seguro quanto às suas propriedades e que foi elaborado a partir de materiais também seguros, ou seja, além de preservar a integridade do trabalhador quanto aos riscos inerentes às profissões, não deve usar materiais que tenham em sua composição substâncias potencialmente nocivas à saúde do usuário. Mas se em algum dos componentes houver a presença de substância de uso restrito, ela deve estar de acordo com a legislação específica e o usuário ser alertado sobre a sua presença e os riscos que podem ser oferecidos. Tudo isso, com a comprovação de normas específicas para cada tipo de EPI.


Sempre que se verificar que algo está errado em um produto ou lote, é preciso aplicar ações corretivas. E, se for o caso, avisar as autoridades na União Europeia. Os produtos sofrerão recall, sendo substituídos por outros, adequados ao uso.


Para garantir a transparência, é preciso ter na embalagem ou no próprio EPI a indicação do nome e o endereço do responsável pelo produto na União Europeia, que passa a ser o ponto focal para contato caso surja algum problema. No caso da Ansell, o endereço de Bruxelas é sempre mencionado como o local para contato.


A Declaração de Conformidade de um EPI tem que estar disponível por 10 anos a partir da data em que o equipamento é lançado no mercado, mesmo que ele deixe de ser produzido. Os manuais de instruções hoje ainda são em papel, mas por questões de sustentabilidade, a União Europeia está buscando alternativas para reduzir o uso de papel, como disponibilizar essas instruções online ou usar sistema de QR Code, por exemplo. “Este é um desejo disseminado por toda a União Europeia, mas são 27 países que precisam discutir e alinhar os procedimentos antes de se tomar qualquer decisão”, salienta.


Considerando que o ideal é se ter uma única orientação para notificar ou testar, reconhecida no mundo inteiro, embora isso não deva acontecer tão cedo, ele conta que a União Europeia está permanentemente em contato com outras federações de outros países, como a Animaseg do Brasil, sempre tentando construir uma abordagem uniforme para o setor de EPIs.


“A partir desses contatos, notamos que existem semelhanças nos processos, mas também diferenças muito importantes. Por isso é fundamental que se estabeleçam essas discussões, ainda mais em um momento de pandemia como este, em que as coisas estão mudando rapidamente”, contextualizou.


Responsabilidade compartilhada


Na União Europeia, a responsabilidade é compartilhada. O importador precisa ser alguém estabelecido na UE e ele tem obrigação de importar somente EPIs que estejam em conformidade com as exigências no mercado europeu, inclusive com as marcações corretas de acordo com o uso. Pois ele vai assumir toda a responsabilidade de levar aquele produto para o mercado. O nome dele vai aparecer junto da marca e o seu endereço na União Europeia também. Desta forma, se o importador tiver o conhecimento de que um produto representa risco por não estar em conformidade, ele tem a obrigação de informar as autoridades legais que há um problema com o produto. Então até certo ponto o importador tem que controlar o fabricante também.


O importador também tem que garantir que o transporte e a armazenagem não ameaçam a conformidade daqueles EPIs.


Cada país da UE é responsável pelos seus controles internos, mas está sendo implantada uma nova regulamentação para a região. “Se trata de uma regulação específica para um controle mais justo deste mercado, pois mesmo lá existem países onde os controles são mais restritos e outros que ainda permitem a entrada de produtos sem qualidade, e isso não pode mais acontecer, se buscamos estabelecer um mercado único”, enfatiza Guido Van Duren. Outra razão para a existência desta regulação nova, segundo ele, é que há uma crescente quantidade de produtos ilegais entrando no mercado especialmente devido à Covid-19. Mas esta não é uma regulamentação aplicada somente aos EPis. A norma é estendida a todos os produtos que entram no mercado.


Esta regulação também exige interação e cooperação das autoridades entre fronteiras. Desta forma, os países têm que informar uns aos outros, caso surja algum produto fora de conformidade, para tentar barrar a entrada em algum dos outros países. Pois, antes desta regulamentação nova, muitas vezes um fabricante que teve o seu produto barrado em um país, o colocava novamente em um contêiner e o enviava para outro mercado. Hoje isso não é mais possível.


“Como as exigências são muito fortes, existem ainda no mercado produtos que não estão em conformidade com a norma e nunca foram certificados. Esse controle vai facilitar a remoção de EPIs perigosos do comércio”, reforça.


Uma curiosidade é que para as forças armadas as regras são diferentes, os militares mesmos definem as suas regulações, e elas variam de acordo com cada País.


Os sistemas de outros mercados



REINO UNIDO - Desde o dia 1º de Janeiro deste ano, o Reino Unido não faz mais parte da União Europeia e passou a ter sua lei própria. A partir desta nova realidade, já se construiu um acordo de tarifas alfandegárias entre a União Europeia e o Reino Unido, mas a questão da regulamentação de EPIs ainda não avançou. A tendência é que sigam as mesmas normas da regulamentação 2016/425. A única diferença é com a necessidade de um endereço, que neste caso, passa a ser no Reino Unido e não na UE, e este endereço deverá ser informado junto do produto. Mas isto no caso de apenas três países do Reino Unido - Inglaterra, Escócia e País de Gales, que usam o selo “K” - já a Irlanda do Norte, apesar de fazer parte do Reino Unido, continua a usar o selo “C” da União Europeia.


ARÁBIA SAUDITA - Para a certificação o produto tem que passar pela aprovação de uma Agência Certificadora do próprio país, mediante testes independentes para obter uma Licença de Comércio. Essa licença é emitida por outra entidade, responsável também pelo pedido para Registro e Certificação à Agência Certificadora. Mas não são os fabricantes quem tratam dessas solicitações todas. Eles devem recorrer sempre ao distribuidor local, que acompanha todos esses trâmites. Quanto aos testes, eles aceitam os resultados de testes físico-mecânicos e de substâncias restritas realizados pela UE. Baseados nos testes, eles fazem uma revisão e emitem um certificado de produto. Ainda verificam as condições do armazém onde os produtos estão acondicionados e se os produtos nas caixas correspondem ao que está descrito nos documentos.

EMIRADOS ÁRABES - também bastante similar com a UE, classificam os produtos em três categorias, de acordo com o nível de proteção necessário - risco baixo, médio e alto. É um sistema de autocertificação, com Declaração de Conformidade. Os processos de aceitação são todos administrativos, com base nos testes já existentes. Localmente é feita uma ficha técnica. Somente para a categoria 3 é exigido o selo EQM, que atesta que o produto passou por uma auditoria e está em conformidade. Há ainda uma necessidade de auditoria dos processos na própria fábrica. Este logo é válido por três anos. Os EPIs categoria 2 podem ter somente o selo da UE, entretanto esta chancela tem validade de apenas um ano. A cada ano, precisam ser novamente testados. Mas as empresas que fornecem EPIs classe 2 podem implantar a certificação EQM e, desta forma, terem a sua certificação válida por três anos, mas elas também terão que passar por auditoria dos seus processos.


UCRÂNIA - a Ucrânia, embora seja uma das nações europeias que não fazem parte da UE, implantou regulações específicas para EPIs totalmente alinhadas com a regulação da União Europeia. O país aceita tanto os testes quanto os certificados atuais de agências certificadoras da UE.





MALÁSIA - na Malásia a testagem precisa ser feita por uma agência externa, e esta agência emite um relatório dos resultados. Com base neste relatório é solicitada uma aprovação específica no Departamento de Saúde e Segurança, que é semelhante à Secretaria do Trabalho do Brasil. Este sistema, porém, serve de certa forma como uma barreira econômica, pois é muito caro para testar os produtos de fora, além de ser muito trabalhoso. A certificação tem validade anual, e a cada ano também é feita uma auditoria na fábrica, para que os produtos aprovados recebam o selo.



IRAQUE - no Iraque também o processo é muito caro. O país exige uma certificação de uma agência local. Esta agência realiza os testes, baseando-se na documentação que acompanha os produtos. Também fazem auditorias anuais nas fábricas, o que encarece bastante o processo. Igualmente neste país é preciso obter uma Licença de Comércio.



BRASIL - No Brasil, quem regulamenta hoje é o Ministério da Economia, através da Secretaria do Trabalho, de onde partem as portarias e normativas tanto para a produção quanto para a testagem e emissão das autorizações de comercialização. A Norma Regu- lamentadora que define os parâmetros de segurança para os EPIs é a NR-06, que prevê, inclusive a responsabilidade de todas as partes - do empregador, do empregado e do fabricante do equipamento com comprovação das propriedades através de um laboratório credenciado. Sobre a certificação em si, a supervisora técnica do Laboratório de EPIs Luvas e Vestimentas, Manuela Almada Alves, explica que a base de toda a produção de EPIs é o Certificado de Aprovação (CA), concedido pela Secretaria do Trabalho. E para a empresa poder conquistar esse certificado, ela precisa passar por várias etapas, entre elas os testes laboratoriais do IBTeC ou de outro laboratório autorizado, os quais passam por auditorias externas para a comprovação tanto da capacitação da equipe técnica, quanto das condições físicas do local, da calibração dos equipamentos e do cumprimento das normas para os ensaios. Para estar legalizado, o produto precisa ter o CA com a validade em dia e o número do CA precisa estar gravado no produto - todo equipamento de proteção individual tem que ostentar o número do Certificado de Aprovação - é nele que constam as informações sobre a validade deste CA e consequentemente do equipamento de proteção. Vencido o prazo de cinco anos, a empresa tem que revalidar o EPI, para obter novo certificado, passando novamente seus produtos pelo processo de ensaios laboratoriais para comprovar todas as suas propriedades. O supervisor técnico do Laboratório Físico Mecânico do IBTeC, Marcelo Lauxen, conta que até o ano de 2008, as normas NBR tinham somente validade nacional, na época, os testes eram realizados nos materiais utilizados em cada parte dos produtos - biqueira, cabedal, sola etc. Mas a norma não avaliava a interação entre os materiais. Posteriormente, as normas ISO foram adotadas pelo Brasil depois que surgiu a preocupação de se ter uma normatização com reconhecimento internacional. Nessa evolução, o que se passou a avaliar são os produtos acabados e hoje, além da proteção, o mercado busca materiais que proporcionem conforto para o usuário.


Dos insumos aos produtos finais, a ordem é inovar


O setor de fornecimento de EPIs tem a peculiaridade de ser uma espécie de escudo protetor dos trabalhadores, fornecendo os equipamentos que vão fazer toda a diferença no quesito segurança, evitando desta forma que acidentes aconteçam ou, quando acontecerem, que o trabalhador tenha um mínimo de proteção quanto à preservação da sua saúde e integridade física. Mas para que os equipamentos estejam disponíveis, atendendo as normas técnicas e propriedades específicas para cada atividade, há antes toda uma preocupação por parte da cadeia de fornecimento.


Insumos, componentes e máquinas são atualizados diariamente para que as soluções desenvolvidas evoluam da melhor forma possível para atenderem as necessidades dos fabricantes, trazendo as principais tecnologias embarcadas aos produtos finais.


É o que vemos a seguir, com exemplos de tecnologias disponíveis para os fabricantes de EPIs, principalmente calçados e luvas, que na sequência mostram também seus desenvolvimentos.


Insumos

Uma das principais fornecedoras de soluções em sistemas de poliuretanos e TPU para a indústria calçadista na América do Sul, a Basf atua no mercado brasileiro há quase 30 anos. Para o segmento de calçados de segurança, oferece sistemas de PU e TPU entre outras soluções usados na fabricação de componentes como solas, entressolas e palmilhas.


De acordo com o especialista de Mercado Footwear da Basf, Rudnei Assis, as inovações permitem maior versatilidade e criatividade no design para calçados, além de contribuir para a fabricação de EPIs com maior conforto, durabilidade e performance.


Entre as soluções inovadoras, a empresa destaca o Elastopan Green, um produto desenvolvido a partir da sintetização de Poliol Poliéster, resultando em um solado que contém 45% de matérias-primas de fonte renovável. O sistema tem desempenho igual ao de um solado produzido com sistema de PU convencional, com performance, durabilidade e propriedades mecânicas também semelhantes, podendo ser facilmente aplicado uti lizando os mesmos equipamentos de moldagem e técnicas de produção.


“Em termos de funcionalidade, o solado em Elastopan oferece melhorias importantes, como uma maior proteção à hidrólise, resistência à baixas temperaturas, melhora do grip (que evita escorregamentos) e maior durabilidade”, assegura o especialista.


Entre os desenvolvimentos, há soluções para aumentar a resistência contra ataques de bactérias e fungos, oferecer maior adesão e resistência ao deslizamento nas superfícies mais exigentes, trazer maior conforto, durabilidade e leveza ao calçado, diminuir a geração de impactos ambientais com a redução do consumo e da geração de sobras de componentes, bem como diminuir as emissões de CO2 e o uso de energia nos processos.


A Magma desenvolveu e patenteou a linha de materiais para palmilhas, couraça e contraforte Tubox, que, de acordo com o diretor Fernando Nicory, se trata de um material pioneiro com maior conteúdo reciclado e reciclável do mercado, aliando não só a sustentabilidade mas também performance. “É um material mais resistente, flexível, impermeável, termoconformável, sem cheiro e livre de substâncias restritas”, assegura Fernando.


A tecnologia criada no Brasil e disponibilizada mundialmente é produzida a partir da mistura de diferentes tipos de plásticos de difícil reuso e que por este motivo não possuem valor na cadeia de reciclagem, sendo geralmente destinados a aterros sanitários. Este material agora é utilizado em palmilhas para calçados e botas, couraças, contrafortes e também em peças de proteção uma vez que pode ser termo conformado.


Outro desenvolvimento da Magma é a Ortholite, maior marca de palmilhas mundialmente com produção no Brasil. A Espugum/Ortholite possui a mais ampla gama de formulações de espumas de célula abertas para todos os segmentos de calçados, e não poderia ser diferente no segmento de calçados de segurança.


Todas as formulações Ortholite recebem antimicrobiano em sua composição agregando esta propriedade também ao polímero e não apenas superficialmente no tecido, oferecendo excelente controle da umidade nos pés, uma vez que são respiráveis e proporcionam conforto, resiliência e não deformam. Além disso, as diferentes densidades, durezas e formulações podem ser combinadas sob medida de acordo com o projeto do cliente. “Desde o início a Ortholite se preocupa com a sustentabilidade e utiliza Poliol de origem vegetal e pó de borracha em sua composição. Um dos destaques e com muito sucesso em EPI calçados é a Ortholite Reciclada com 98% de conteúdo reciclado em sua composição”, comenta Fernando, lembrando que a mais recente inovação é a fórmula Ortholite ESD, que confere o que há de mais avançado e moderno em proteção contra descargas elétricas para calçados.



A Romana é uma empresa química, originalmente brasileira, que fabrica e desenvolve uma extensa variedade de produtos para o setor calçadista, gráfico, construção civil e plásticos em geral, atuando no segmento de tintas. Suas operações para o mercado externo correspondem a mais de 50% do volume anual de venda, estando presente em todos os mercados da América Latina e América Central.


No mercado brasileiro, a marca pode ser encontrada em praticamente todos os estados, seja por canal de venda direta ou distribuição.



Entre seus fornecimentos para indústrias de calçados de segurança, itens como masterbatch (concentrado de pigmento, carga e/ou aditivo em resinas termoplásticas), solventes, desmoldantes, limpadores e sistemas de Poliuretano, sempre trabalhando com duas linhas de produtos - uma com produtos não controlados e outra com produtos controlados, os quais recebem a denominação Free. “Nessa linha não utilizamos ftalatos, metais pesados (cromo, chumbo e níquel), formoldeídos entre outros produtos controlados pelo regulamento europeu REACH e por outras normas internacionais de políticas de sustentabilidade e uso de substâncias com uso controlado e restrito”, observa o gerente comercial da Romana Química, Iuri Patuzzi.


O gerente conta que estes produtos são amplamente utilizados em calçados de segurança, nicho que a empresa tem maior atuação. Atualmente as vendas para empresas de calçados de segurança correspondem a 22% do faturamento com tendência de alta. Tendo como foco o mercado de EPI, a meta de crescimento neste setor é de 15%.


Vale ressaltar que o REACH determina que os fabricantes e fornecedores devem disponibilizar, ao longo da cadeia de abastecimento, informações sobre os riscos gerados