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Avaliação do conforto percebido em calçados de segurança com diferentes tipos de fixação


Resumo

Diferentes situações de uso na atividade laboral, como ficar em pé, caminhar e diversos tipos de pisos podem proporcionar desempenhos musculoesqueléticos distintos. O calçado de segurança pode exercer um papel importante no bem-estar dos funcionários. O objetivo deste estudo foi identificar se existem diferenças de percepção de conforto e segurança entre gêneros na utilização de calçado de segurança padrão com e sem atacador.


Palavras-chave: calçado de segurança, EPIs, conforto


Abstract

Different usability situations on the work activity, such as stand up, walk, several types of floors can provide different skeletal muscle performances. The safety footwear can play an important role in the well-being of employees. The goal of this study was identify if there is differences of confort perception and safety between genders on the use of safety footwear with and without shoelace.


Keywords: safety shoes, PPE, comfort


Introdução

Os calçados de segurança são largamente utilizados em muitos setores da indústria, em diferentes ambientes e ramos. Muitos trabalhadores utilizam o calçado de segurança por aproximadamente oito horas por dia, cinco dias por semana, com o propósito de promover segurança e também prevenir possíveis acidentes ocupacionais. O mercado de Equipamento de Proteção Individual (EPIs) possui uma grande diversidade de produtos e modelos, existem diversas marcas produzindo calçados e os trabalhadores que estão expostos a situações de risco os utilizam com a certeza de estarem protegidos. Para assegurar que o material utilizado na confecção do EPI é de qualidade, a norma ABNT NBR ISO 20345/2015, para calçados de segurança (com biqueira), estabelece requisitos básicos, que incluem riscos mecânicos, resistência ao escorregamento, riscos térmicos e comportamento ergonômico, entre outros, e a norma ABNT NBR ISO 20347/2015 se refere a calçado ocupacional sem biqueira.


A função geral dos calçados de segurança é evitar lesões em caso de acidente industrial, mas, além disso, eles podem ser um instrumento preventivo de longo prazo para a manutenção da saúde do sistema musculoesquelético dos funcionários, pois, de acordo com Ochsmann, et al. (2016) os parâmetros de marcha podem ser afetados pelo seu uso. Estima-se que 50% da população utilizam calçados inadequados, podendo ocasionar dores, lesões hiperquerostáticas (calos), problemas de saúde nos membros inferiores e tronco (LÓPEZ et al. 2017). Neste sentido, Branthwaite e Chockalingam (2019) afirmam que existe uma compreensão limitada quanto às mudanças que podem ocorrer devido ao uso regular de calçados inadequados desde sua forma, estilo e construção, que são referidos como mal ajustados.


A escolha do calçado de segurança deve obedecer alguns critérios não somente relacionados à segurança pessoal, como a escolha do nível de proteção, mas também critérios estéticos e de conforto como, por exemplo, o material usado e a fôrma dos sapatos. Quanto ao material utilizado no calçado EPI, percebe-se uma melhora continua ao longo dos tempos que se traduz em mais leveza e resistência, controle do microclima (temperatura e umidade), flexibilidade, entre outros. As dimensões do calçado merecem total atenção, pois é fundamental que o calçado proporcione uma correta adaptabilidade do pé.


Diante de muitos modelos e necessidades diferentes de EPIs comercializados em nosso meio, o propósito deste estudo é identificar as percepções de conforto e segurança entre os gêneros masculino e feminino ao utilizar um calçado de segurança do tipo padrão (ocupacional - protege os pés contra risos de natureza leve) tendo como diferencial o fato de sua construção superior ser confeccionada com e sem atacador (fixação por elástico).


Materiais e Metodologia

Este estudo se caracterizou do tipo descritivo-exploratório, sendo que os dados foram adquiridos e comparados entre si. Para a determinação dos níveis de percepção do calce em calçado com e sem atacador foram utilizados os seguintes equipamentos:

- Esteira ergométrica Inbramed Master e um questionário quali-quantitativo similar ao utilizado na norma de conforto. Os calçados foram:

- Sete pares de calçados EPI padrão (calçado ocupacional) com atacador e sete pares de calçados EPI sem atacador.


Participaram deste estudo piloto sete sujeitos (três do gênero masculino e quatro do gênero feminino). A média de estatura dos indivíduos foi de (170 ± 0,10) cm, massa de (68 ± 13) kg e idade de (32 ± 5) anos.


Após a adaptação do modelo na esteira a uma velocidade controlada de 4km/h (feminino) e 5km/h (masculino) como descreve a norma NBR 14834 para conforto dos calçados, os testes foram realizados de forma randômica, com duração de 10 minutos de caminhada com cada modelo de EPI (calçado padrão, com e sem atacador, conforme a Figura 1), alternando sujeitos e calçados. Foram utilizados calçados femininos de numeração 35, 36 e 37 e calçados masculinos de numeração 40, 41 e 42. Após cada caminhada na esteira com o modelo de calçado sorteado, aplicou-se um questionário sobre a percepção dos mesmos em relação ao EPI.


As perguntas foram as seguintes:

- Sensação durante o calce.

- Adaptação do calçado aos pés.

- Liberdade de movimento.

- Segurança e estabilidade


Para a apresentação e análise dos dados foi utilizada a estatística descritiva

Figura 1: Modelo similar do calçado utilizado durante a percepção do calce


Resultados

Através dos dados encontrados mediante as respostas dos questionários dos sujeitos masculinos e femininos observa-se que, de acordo com a Figura 2 e a Figura 3, que o calçado do tipo EPI com atacador utilizado neste estudo foi melhor avaliado por ambos os gêneros e na maioria das situações (adaptação do calçado aos pés, liberdade de movimento, segurança e estabilidade) sendo notória a distinção das notas por parte do gênero masculino.


Acredita-se que a similaridade das notas do gênero feminino possa ser devido ao formato dos calçados analisados apresentarem o mesmo padrão, estando habituadas a utilizarem calçados de construções bastante diferenciadas, como calçados de salto alto, sapatilhas, sandálias e afins.


Figura 2: Percepção sobre o EPI, gênero feminino



Figura 3: Percepção sobre o EPI, gênero masculino


Embora os calçados sem atacador, de uma forma geral, apresentarem maior praticidade no momento do calce, os relatos obtidos neste estudo apontam uma tendência de que estes calçados sejam mais “folgados”, proporcionando uma sensação de instabilidade ao caminhar, isto pode ser devido a intensidade do elástico utilizado para ajustar os diferentes tipos de pés (delgados, medianos e robustos). Diante disso, observa-se na Figura 3 que a preferência de ambos os gêneros por calçados de segurança com atacador, provavelmente pela possibilidade do ajuste, moldando e acomodando melhor o calçado no pé (adaptando melhor as diferentes morfologias de pés), e desta maneira aumentando o conforto percebido pelo usuário.


Figura 4: Preferência quanto ao estilo de calçado


Conclusões

É notório que dependendo da situação é necessário que o usuário utilize uma especificidade de calçado, como por exemplo, com ou sem atacador. Neste estudo conclui-se que o gênero feminino apresenta similaridade entre os tipos de calçados avaliados. Já com o gênero masculino, observa-se que ocorre a predominância em utilizar calçados com atacador. Esta discrepância entre os gêneros pode estar relacionada ao fato do gênero feminino utilizar calçados com diferentes designs e construções. Observa-se que independente do tipo de fixação, com ou sem atacador, o calçado cumpre a sua função que é proteger o sistema musculoesquelético. Para estudos futuros sugere-se aumentar a amostragem avaliada e inserir outros modelos de calçados.


Bibliografia

1- LÓPEZ,P.P.; VALLEJO, R.B.B.B.; IGLESIAS, M.E.L.; SANZ, D.RR; LOBO, C.C.; LÓPEZ, D.L. Footwear used by older people and a history of hyperkeratotic lesions on the foot. Medicine, v.96, n.15, 2017.

2- Branthwaite H, Chockalingam N. Everyday footwear: An overview of what we know and what we should know on ill-fitting footwear and associated pain and pathology. Foot (Edinb). 2019 Jun;39:11-14. doi: 10.1016/j. foot.2019.01.007. Epub 2019 Jan 17. PMID: 30851650.

3- Hong, Youlian & Wang, Lin & Li, Jing & Zhou, Ji. (2011). Changes in running mechanics using conventional shoelace versus elastic shoe cover. Journal of sports sciences. 29. 373-9. 10.1080/02640414.2010.534805.

4- Janson, Debbie & Newman, Stephen & Dhokia, Vimal. (2019). Next Generation Safety Footwear. Procedia Manufacturing. 38. 1668-1677. 10.1016/j.promfg.2020.01.117.

5- Ochsmann E, Noll U, Ellegast R, Hermanns I, Kraus T. Influence of different safety shoes on gait and plantar pressure: a standardized examination of workers in the automotive industry. J Occup Health. 2016 Sep 30;58(5):404-412. doi: 10.1539/joh.15-0193-OA. Epub 2016 Aug 4. PMID: 27488038; PMCID: PMC5356974.


STONA, Hygor1 e WILBORN, Juliana1

1. Instituto Brasileiro de Tecnologia do Couro, Calçado e Artefatos (IBTeC)