Edição 312 - Mai/Jun 2019

Como atrair os millennials para trabalharem no setor industrial?

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Dentre tantos desafios enfrentados pelos empresários do setor industrial um deles é a necessidade de oxigenação do quadro de funcionários, atraindo pessoas jovens para trabalharem junto aos mais experientes e dessa forma garantir a continuidade do aprendizado, que fundamenta a permanência do negócio no mercado no longo prazo. Nos últimos anos, esta situação tem ganhado ainda mais importância, pois existe a percepção de que boa parte da chamada a geração Y - que pensa e age de forma muito diferente das gerações anteriores e está adentrando agora no mercado de trabalho - demonstra menor interesse em desenvolver carreira na área de produção, preferindo atuar em outros setores, considerados por eles mais atrativos e inspiradores. Dessa forma, compreender o comportamento dos mais jovens tornou-se fundamental para as corporações que buscam cativar este público em complemento do seu patrimônio humano.

Para explicar essa necessidade, é preciso retroceder um pouco na linha do tempo. Os Baby-Boomers - pessoas da geração nascida entre 1945 e 1964, logo depois da Segunda Guerra Mundial, e que foram jovens nas décadas de 1960 e 1970 - acompanharam as transformações importantes acontecidas naquela época, passaram por diversas adversidades e tiveram que trabalhar duro para criar e educar seus filhos da Geração X (aqueles que nasceram no início de 1960 até o final dos anos 70. Por vezes são incluídos também os nascidos até 1982). Estes, de um modo geral, viveram em décadas de maior prosperidade econômica e tiveram melhores condições para se prepararem profissionalmente. Puderam alcançar maior sucesso em suas carreiras, ocupando hoje grande parte dos cargos de diretoria das empresas. Já a Geração Y, também conhecida por Millennials, é composta pelas pessoas que nasceram entre os anos de 1980 e início dos 1990. São ainda chamadas de Geração do Milênio ou Geração da Internet, devido ao fato de serem os primeiros a nascer num mundo totalmente globalizado.

Neste novo ciclo, percebendo o sucesso profissional dos seus antecessores, os jovens chegam ao início da fase adulta cheios de expectativas em relação ao mercado de trabalho, tendo ainda como espelho o comportamento das pessoas com quem se relacionam nas redes sociais - que são um mundo à parte, onde é evidente o esforço para se vender a imagem de que se é bem-sucedido em tudo o que é feito. "Esses jovens não se contentam com pouco e muitas vezes acreditam serem mais preparados do que realmente são, eles almejam crescer rapidamente em suas carreiras profissionais, estão mais preocupados com o propósito do seu trabalho e da empresa para a qual vão trabalhar, mas não se apegam facilmente às organizações onde exercem as suas habilidades. As empresas, por sua vez, mantém nos cargos de liderança profissionais ainda da Geração X, que não conseguem entender a razão para tanta ansiedade por um crescimento acelerado, principalmente quando este desejo vem de um profissional ainda no início de sua carreira e que, em tese, lhe falta conteúdo", descreve André Freire, sócio-diretor da Exec, organização estruturada por uma equipe de profissionais que são referência em diferentes especialidades de diversos setores da economia. Para ele, o ponto crucial é que as novas gerações em breve serão a maioria nas empresas, dessa forma, faz todo o sentido imaginar que aquelas organizações que hoje investem para encontrar a melhor forma de engajar os jovens terão melhores condições de sobreviverem no futuro. "É muito mais inteligente investir na adaptação às novas demandas do que impor como norma culturas e estratégias de gestão vigentes", considera André, alertando para o fato de que é urgente que as empresas aprendam a ouvir e comunicar-se mais e melhor com essa nova geração; pois tanto os canais quanto o formato e a velocidade da comunicação que eles utilizam hoje são muito diferentes dos usados tradicionalmente por grande parte das empresas que persistem em manter um perfil mais conservador.

O fato de os jovens estarem com menos paciência para ascenderem no mercado de trabalho tem impacto também nas universidades, onde o crescimento de cursos tecnológicos evidencia esse comportamento. Segundo o mais recente Censo da Educação Superior publicado pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC), cursos tecnólogos e cursos a distância têm atraído cada vez mais jovens em busca de uma formação prática e com menor tempo de duração (tecnológico leva de 2 a 3 anos e bacharelado de 4 a 6).

Mesmo ainda atrás dos cursos de bacharelado (60,1%) e de licenciatura (20,1%), houve aumento na ordem de 119% na procura por cursos tecnológicos comparando dados referentes ao período de 2007 (281.426 estudantes matriculados) até 2017 (617.317 matrículas), e os índices cresceram tanto na quantidade de novas matrículas, quanto na percentagem em relação ao total. Entretanto, talvez o dado mais impressionante seja o do ensino a distância, já que 46% desses 617 mil se inscreveram para estudar nessa modalidade, dando indicações de que o ensino a distância já bate de frente com o presencial, traduzindo a nova visão de mercado de trabalho, de comportamento e da relação estabelecida com o jovem profissional.

Na comparação a seguir, se observa a evolução de ensino a distância em relação ao total de matrículas para cursos do ensino superior nos últimos cinco anos (2013-2017).
2013 - 521.766 - 37,1% a distância
2015 - 617.468 - 45,4% a distância
2017 - 617.317 - 46% a distância

Esses números podem ter uma explicação. Em 2017, 2.448 instituições de ensino superior estavam cadastradas no MEC gerando quase 10 milhões de vagas abertas para pouco mais de 8 milhões de matriculados, ou seja, ter uma graduação no currículo está se tornando relativamente comum e, muitas vezes, o diferencial acaba sendo uma pós-graduação, que pode ser feita também pelo aluno que conclui um tecnológico.

Mas por outro lado é bom lembrar um estudo realizado em 2017 pela Education at a Glance, da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em Paris, o qual revela que apenas 15% da população brasileira tem curso superior - este número converge com o relatório da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) de 2016 sobre o retrato da Educação no Brasil. E para piorar, o País figura ainda como uma das nações com o maior número de pessoas sem diploma do ensino médio: mais da metade dos adultos (52%) com idade entre 25 e 64 anos não atingiram esse nível de formação, segundo o estudo Um Olhar sobre a Educação, divulgado em 2018 também pela (OCDE).


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